A VERDADEIRA PAIXO 
The Real McCoy -  Sabrina Noivas 2
Patrcia Knoll 

Foi amor  primeira vista! Bret e Ginny no conseguiram conter a paixo e se casaram duas semanas aps o primeiro encontro... Depois de seis meses, porm, ela descobriu que havia cometido um terrvel engano. Fugir do marido foi fcil. O pior foi escapar dos prprios sentimentos. Para Ginny no havia chance de renconciliao, mas Bret no pensava da mesma maneira....


Digitalizao e correo: Nina

PRLOGO

Estamos atrasados  disse Ginny McCoy, arrastando o pai pela escada da velha igreja e empurrando a irm mais nova que ia  sua frente.
	No empurre  Carrie reclamou.  No sei por que est to desesperada para assistir a este casamento. Voc se apaixonou por Sam Calhoun desde que foi aceita em seu time de beisebol  acusou com a franqueza devastadora de uma jovem de dezessete anos.  No entendo por que est to ansiosa para v-lo casado.
	Fique quieta  Ginny ordenou.  Voc podia ter ficado em casa, mas tambm no quis perder o casamento do ano.
	 uma oportunidade de encontrar os amigos  Carrie confessou, parando antes de abrir a enorme porta de madeira.
Irritado com a discusso das filhas, Hugh interferiu:
	Vamos, garotas  e empurrou a porta.  Esto vendo?
A cerimnia j vai comear.
	E a igreja est lotada!  sussurrou Ginny, enquanto caminhavam lentamente pelo corredor lateral. Se no houvesse levado tanto tempo para convencer o pai a vestir um terno, no teriam se atrasado.
Sam e Laura estavam parados diante do altar c o Reverendo Mintnor preparava-se para comear a cerimnia. Ginny finalmente encontrou um espao vazio c empurrou o pai e a irm, consciente de que atraam olhares curiosos. Sentaram-se ao lado de Margie Blaines, uma vizinha, que comentou em voa baixa:
	Tambm vieram ver a proeza de perto? Essa Laura Decker  mesmo uma garota de sorte!
 Os dois tm sorte  Ginny respondeu no mesmo tom.
Toda a populao de Webster, Carolina do Sul, havia comparecido ao casamento, e o evento mereceria uma nota no Herald, o jornal semanal que Hugh possua e editava.
Sorrindo, Ginny teve de admitir que Carrie estava certa. Todo o time feminino de beisebol estava na igreja, porque no podiam acreditar que o homem mais bonito e atraente da cidade estava se casando, e todas elas haviam se apaixonado por Sam, at mesmo as casadas e felizes como Margie.
Quando todos entoaram a melodia principal e os noivos disseram o sim, Ginny esticou o pescoo para presenciar o momento mais romntico e imaginar o prprio casamento. Seria uma cerimnia no campo, e seu pai estaria usando um fraque elegante e requintado, como o noivo. E era a que as coisas sempre se complicavam. No s no conseguia imaginar o futuro marido, como duvidava que Hugh algum dia concordasse com a ideia de vestir um fraque.
Finalmente os noivos deixaram o altar, seguidos pela comitiva, e todos puderam apreciar o belo vestido branco de Laura. As damas de honra usavam trajes de um coral brilhante, e Sam e seus dois pajens vestiam fraques idnticos. Os trs homens tinham uma semelhana impressionante e, sabendo que as damas de honra eram irms de Laura, Ginny imaginou se os pajens tambm no teriam o mesmo lao sanguneo com o noivo.
O grupo aproximou-se e de repente Ginny tomou conscincia de um homem em especial, cuja cabea virou-se no exato momento em que ela o fitava.
Era bonito, e os cabelos louros emolduravam um rosto de traos perfeitos, com um nariz reto e lbios firmes e cheios. Mas o que realmente chamou sua ateno foram aqueles olhos... de um cinza claro, intensos e brilhantes... e cravados em seu rosto.
Sabia que estava vermelha e teve a impresso de que todos haviam percebido que observava o desconhecido, mas uma espcie de fora elementar a impedia de desviar a ateno.
Ele devia estar experimentando a mesma sensao, porque caminhava lentamente, de braos dados com a dama de honra, e mantinha os olhos fixos em Ginny.
Finalmente o cortejo saiu da igreja e ela pde finalmente respirar aliviada.
Confusa, encarou o pai e perguntou:
	Quem  aquele, papai? O... o mais bonito...
Hugh estava ocupado soltando a gravata e tentando sair da igreja antes da multido, e por isso no notou o tremor na voz da filha e nem o rubor que tingia seu rosto.
	Aquele  Bret, irmo de Sam. Estou louco para conhec-lo, sabe? Ouvi dizer que ele  reprter em Memphis, e acho que voc tambm devia tentar conversar com ele. Devem ter muito em comum.
	Est brincando  ela murmurou, ainda sob o efeito do encontro devastador.
	Se decidir que no quer trabalhar para mim quando terminar o estgio, talvez ele possa ajud-la a encontrar um emprego. Eu sempre digo que no se deve perder uma boa oportunidade.
	Talvez  respondeu, seguindo o pai e a irm e pensando no que havia acontecido.
Jamais reagira  presena de um homem de maneira to ridcula, e ainda estava tentando recuperar-se quando chegaram ao salo onde os noivos recebiam os cumprimentos. Haviam terminado de abraar Sam e Laura, quando o baile comeou. Hugh e Carrie afastaram-se para cumprimentar os amigos e pegar uma bebida, e Ginny ficou parada junto  pista, ouvindo a msica agradvel e apreciando o movimento.
Atravs da sala, viu um homem endireitar-se subitamente. Ele virou-se e olhou em sua direo, como se houvesse chamado seu nome... Bret Calhoun. Estava sorrindo e flertando com as damas de honra, mas o sorriso desapareceu imediatamente de seus lbios.
Sem dizer nada s pessoas que o acompanhavam, atravessou a sala cheia e veio em sua direo. Ao v-lo aproximar-se, ocorreu-lhe que uma mulher esperta fugiria imediatamente, mas ela ficou onde estava, esperando. Finalmente ele parou  sua frente e observou-a sem pressa e atentamente, como se todos os outros convidados houvessem desaparecido e s existissem os dois, Bret sorriu... e Ginny compreendeu que estava perdida.
Ele estendeu a mo e levou-a para a pista de dana, onde acompanharam o ritmo romntico da melodia como se j houvessem danado diversas vezes.
Estar perto daquele homem era a experincia mais intensa e assustadora que Ginny j tivera, pois nunca havia conhecido algum com tanta fora c sensualidade. Devagar, cie a guiou at o. terrao, onde alguns casais danavam na penumbra. Uma vez l fora, afastou-a ligeiramente e observou seu rosto delicado sob a luz plida que vinha do interior.
	Eu sou Bret Calhoun  disse finalmente em voz baixa.
	Eu sei. J perguntei por voc  ela admitiu.
	Estava interessada? Isso parece promissor. Quem  voc?
No sabia se seria capaz de falar com voz firme, mas respondeu:
	Ginny McCoy.
 Ele sorriu:
	A verdadeira McCoy. Finalmente a encontrei.
Confusa, Ginny encarou-o e perguntou:
	Estava me procurando?
	Estava, mas no sabia seu nome.
	No entendi...
Em vez de responder, Bret afastou-se e tomou as mos dela entre as suas, cravando os olhos em seu rosto.
Ginny sabia que era atraente, mas nunca fora vaidosa, pois considerava a beleza como uma herana que recebera da me, e no algo que adquirira por mrito prprio. No entanto, agora sentia-se particularmente feliz por ter uma pele sedosa e cabelos brilhantes.
	J completou dezoito anos?  Bret perguntou com tom preocupado.
	Tenho quase vinte e trs!
	Voc parece to jovem, to... intocada.
	Que palavra antiquada!
	Eu acho que combina com voc. Por acaso  casada?
	No.
	Otimo. Isso toma as coisas mais fceis.
	Que coisas?
	As coisas entre ns  e parou para olhar as mos pequenas c macias que segurava. Em seguida encarou-a novamente e disse:
 No quero assustar voc, mas acho que devia preparar-se. Ns vamos nos casar.

CAPTULO I

Ginny despertou lentamente com um sorriso nos lbios e uma profunda sensao de contentamento. Estendeu a mo esquerda, mas s encontrou os lenis e o travesseiro vazio.
Seus olhos, azuis como o cu da Carolina do Sul, abriram-se subitamente e ela viu que estava sozinha na cama, como na maioria das noites dos ltimos sete meses. Triste e decepcionada, forou-se a encarar os fatos com a mesma determinao que evocava a cada manh.
No entendia por que sentia a falta de Bret de maneira to intensa. At casar-se com ele, jamais havia dividido uma cama com algum, e aps o casamento passara muitas noites sozinha. E agora j estava solteira novamente h alguns meses...
Incapaz de pensar com clareza antes do caf, afastou as cobertas e levantou-se. Esperou alguns momentos at que as emoes se acalmassem e depois espreguiou-se, desfazendo os ns dos msculos e ativando a circulao. Sabia que seria melhor deixar a memria seguir seu curso natural e, por isso, desistiu de lutar contra as lembranas.
Casara-se com Bret Calhoun numa cerimnia simples em sua casa, duas semanas aps o casamento de Sam e Laura, e o deixara menos de seis meses depois. O primeiro aniversrio fora marcado pela assinatura do divrcio.
A dor provocada pelas lembranas a fez caminhar at a janela, onde respirou a brisa fria da manh de Setembro.
Esfregando os braos nus, observou o dia claro e, mais uma vez, tentou descobrir por que havia escolhido algum to inadequado para amar. 
E de repente, parada diante daquela janela, teve a sensao de que estava prestes a sofrer uma grande mudana. Todos os sentidos pareciam mais alertas, e o aroma matinal chegava mais forte at seu nariz. As folhas das rvores pareciam ter um formato mais definido, e a voz da vizinha atingia seus ouvidos com uma nitidez assustadora.
Talvez estivesse pronta para esquecer o passado e seguir em frente.
Com disposio nova, aproximou-se do espelho e escovou os cabelos que chegavam  altura do queixo, afastando-os do rosto com uma fita elstica. Depois vestiu uma cala azul turquesa e uma camiseta cor de rosa, uma combinao que sempre a agradara mas que nunca tivera coragem de usar.
Desceu, comeou a preparar o caf e descobriu-se atenta a movimentos que haviam sido automticos desde os doze anos de idade. Enquanto preparava as torradas e os ovos mexidos, ia tomando pequenos goles de caf e sentindo o sabor intenso da bebida, que agora parecia mais forte e marcante.
Colocou um pouco de gelia de cereja num pote pequeno e admirou a cor viva e vibrante. Depois ajeitou tudo sobre uma bandeja de prata e levou-a para a sala de jantar. Ela e Hugh costumavam comer na cozinha, mas naquele dia queria algo diferente.
Minutos depois Hugh desceu, sentou-se  mesa e disse:
	Bom dia, querida. Alguma ocasio especial?
	No, papai. Eu s queria mudar um pouco a rotina. Raramente tomamos o caf da manh juntos, e achei que podamos
aproveitar a manh de sbado.
	Voc dormiu bem?
Era bvio que sua curiosidade de jornalista havia sido provocada pelo comportamento diferente e evasivo da filha, e Ginny decidiu manter a atitude enigmtica.
- Muito bem  respondeu, abrindo o jornal que vinha de Columbia todas as manhs.
Aps alguns instantes de silencio, Hugh pigarreou e informou.
	Ginny, tenho algo importante para dizer.
	O que , papai?  perguntou, sem desviar os olhos de um artigo sobre a ltima rodada de discusses polticas no Meio Oeste. Nos ltimos tempos pensava em incluir um editorial no Herald e convidar os membros da comunidade para expressar suas opinies sobre os eventos mundiais, e aquele assunto despertava o interesse geral.
	Ginny McCoy, quer fazer o favor de prestar ateno?
Quando ele a chamava pelo nome inteiro, era sinal de que o assunto era srio. Assustada, Ginny fechou o jornal e encarou-o:
	Sim, papai.
	Eu decidi me aposentar.
	Aposentar? O que significa isso?

	Se quer a definio do dicionrio, significa afastar-se do trabalho.
	Eu quero a sua definio, papai.
Hugh hesitou durante alguns instantes e depois respondeu:
	Acho que  a mesma. Quero me afastar do jornal.
	Vai vender o HeralcH
	 claro que no! Vou contratar um novo editor.
Se Hugh houvesse anunciado que pretendia casar-se com uma danarina de cabar, Ginny no teria ficado to chocada. Abriu e fechou a boca vrias vezes, e seu rosto delicado transformou-se numa mscara de horror e surpresa.
	Contratar...? Mas, papai, eu sou a editora do jornal!
	Substituta, querida. Combinamos que voc seria a editora at que eu conseguisse me livrar daquela maldita pneumonia, e depois voltaria  reportagem.
	Mas isso no  necessrio! Eu posso...
	Ginny, eu ainda no terminei. Tenho melhorado bastante nos ltimos dias, mas sei que ainda no estou totalmente recuperado. J estou velho, cansado, e acho que  hora de me afastar do jornal e descansar.
	Papai, voc s tem cinquenta e cinco anos! Por que est pensando em aposentar-se to cedo?
	Exatamente porque  cedo! Enquanto estive doente, percebi que ainda tenho algum tempo e que desejo fazer mais coisas na vida alm de publicar um jornal.
	Que coisas?
	Escrever um romance, por exemplo.
Ginny espalmou uma das mos sobre o peito e balanou a cabea lentamente.
	Voc nunca disse que queria escrever um livro.
	Estou dizendo agora. Sempre tive boas ideias, mas passava todo o tempo trabalhando no jornal e cuidando de voc e Carrie.
Ela bebeu um gole de caf e respirou fundo, tentando coordenar as ideias.
Em seguida argumentou:
	Agora Carrie e eu j somos crescidas. Ela foi para a universidade, eu tenho minha caixeira, e voc pode fazer o que quiser.
S no entendo por que quer contratar um novo editor. Estou cuidando do jornal desde fevereiro, e posso continuar fazendo tudo sozinha.
	No.
A palavra ficou entre eles como um muro de tijolos.
Ginny observou-o atentamente e teve certeza de que jamais havia visto o pai to decidido antes. Normalmente era um homem flexvel, aberto a conselhos e opinies, mas agora tinha um brilho nos olhos que teria feito parar um bfalo assustado. Ela sabia que devia levar aquele olhar a srio e tom-lo como um aviso, mas era tudo to novo e estranho, que inclinou o corpo para a frente, apoiou os cotovelos na mesa e tentou argumentar.
	Papai, voc mesmo disse que eu havia feito um bom trabalho no jornal.
Hugh realmente dissera aquelas palavras, mas no hayia falado a verdade e ela sabia disso. S havia tentado despertar sua confiana, pois desde que Ginny assumira o cargo de editora do Herald, o jornal passara por todos os problemas possveis e imaginveis, desde custos elevados at mquinas que insistiam em quebrar a cada quinze minutos. Mas ela tentara, e mostrara muita determinao.
	Eu sei o que disse, e sei o quanto foi dedicada  ele concordou.  Mas agora no precisa mais continuar com tudo isso.
Os dois sabiam sobre o que Hugh estava falando. Quando Ginny voltara para casa, havia sete meses, agarrara-se desespe-radamente aos desafios do jornal para encontrar um objetivo e um sentido para a prpria vida. Naquela poca, havia sido vital ter outras preocupaes alm de si mesma, uma mulher de vinte e trs anos de idade que fracassara como esposa.
	Mas, papai, eu quero continuar com o trabalho que estou fazendo!  pediu.
Se tivesse um pouco mais de tempo, sabia que poderia resolver todos os problemas.
	No tente me seduzir com esses olhos brilhantes, menina! 
Isso deixou de funcionar h anos  riu ele.  Ou seriam dias? No importa. J tomei uma deciso, e no vou voltar atrs. Ser que no entende, filha? Eu enganei voc, e agora s estou querendo reparar meus erros.
Cada vez mais confusa, ela cravou os olhos azuis no rosto do pai e perguntou:
	Do que est falando? Que histria  essa de ter me enganado?
	Passei muito tempo dependendo de voc, querida. Quando sua me morreu, voc tinha apenas doze anos, e Carne era s uma garotinha de sete. No tenho nenhum orgulho de admitir que agi como se fosse o nico membro da famlia a sofrer com a morte de Nancy. Vocs duas perderam a me e o pai, compreende? Quando eu venci a depresso... e o alcoolismo a que me entreguei por algum tempo, percebi que voc estava cuidando de tudo sozinha, desde a cozinha at os bilhetes para os professores de sua irm. Deixei que continuasse cuidando da casa durante seus anos de colgio, e voc nunca reclamou de nada. Quando disse que s iria para a faculdade quando Carrie fosse para o colgio, eu aceitei sua deciso e permiti essa injustia, e agora compreendo o quanto estava errado.
	Eu no me importava, papai. Gostava de estar sempre ocupada.
	Esse  o problema. Voc esteve sempre ocupada fazendo o meu trabalho! Nunca teve tempo para se divertir...
	Eu me diverti muito. Papai, por que toda essa culpa de repente?
	Porque acabei de repetir o mesmo erro. Voc cuidou sozinha do jornal durante a primavera e o vero, escreveu os editorias, pagou as contas, contratou empregados, e durante todo o tempo, o que queria fazer realmente era estar atuando como reprter.
Nunca chega em casa antes das sete, j perdeu pelo menos dez quilos, e acho que no saiu com seus amigos uma nica vez desde que voltou para casa.
	Eu emagreci por outras razes e, para ser bem franca, no senti nenhuma vontade de encontrar meus amigos. Alem do mais, eu sabia que voc precisava de mim.
	Ainda preciso, mas no vejo razo para deixar toda a carga sobre seus ombros. J contratei um novo editor e voc pode voltar para a reportagem. No era isso que queria quando decidiu ser jornalista?
	Sim, mas...
	Nada de mas. Est tudo acertado, e no h mais nada a discutir  Hugh respirou fundo e, de repente, um ataque de tosse sacudiu seu coipo magro e debilitado.
Assustada, Ginny levantou-se e aproximou-se do pai:
	Voc est bem?
	Estou..  ele respondeu com dificuldade, tomando um pouco de caf para aliviar a garganta.
Preocupada, Ginny voltou a sentar-se e levou a mo aos lbios, os olhos fixos em seu rosto. Enquanto roa as unhas, pensava na questo da aposentadoria e nas mudanas que a deciso acarretaria para o jornal. Sempre fora capaz de convencer o pai a fazer o que ela queria, mas desta vez as coisas eram diferentes. Hugh j havia tomado uma deciso, e o brilho determinado em seus olhos indicava que no mudaria de ideia.
Tinha de admitir que ele havia dito a verdade. Cuidar do jornal fora mais difcil do que imaginara, e sempre que ia deitar-se, exausta e preocupada, imaginava como o pai, o av e o bisav haviam conseguido mandar o Herakl para as ruas numa poca em que todo o sistema de impresso era manual. Mesmo com os computadores e os anos de faculdade, Ginny sabia que seu desempenho no havia sido to bom quanto o dos homens da famlia. Sentia falta do trabalho de reportagem, uma paixo antiga que crescera ainda mais durante os meses de estgio num grande jornal de Memphis.
Com a prtica adquirida nos ltimos meses, afastou rapidamente o pensamento de Memphis antes que outras lembranas viessem  tona.
	No vai querer me enfrentar, no , Ginny? Entende que s estou fazendo o que  melhor para voc? Pense em como tudo ser mais fcil para ns dois. Voc poder voltar para a reportagem, e eu finalmente terei tempo para me dedicar ao livro...
	Bem, eu no...
Um novo ataque de tosse a interrompeu c, quando conseguiu controlar-se, Hugh disse:
	No discuta comigo.  melhor assim, e est decidido.
	No fique nervoso, papai. Se voc prefere assim...  e levantou-se, aproximando-se dele com ar preocupado.  Quer que eu chame o dr. Clay?
	No, eu estou bem  e limpou as lgrimas provocadas pelo acesso num leno que tirou do bolso.  O novo editor comea na segunda-feira.
	O qu? Em dois dias?
	Quanto mais cedo, melhor  e prosseguiu, sentindo que o ritmo da respirao voltava ao normal.  Estou acalentando essa ideia do livro h anos, e quero resolver tudo para comear a escrever o mais depressa possvel. No se importa, no ?
Com uma espcie de risada histrica, Ginny arrancou a fita que prendia seus cabelos e atirou-a no cho, antes de exclamar:
	 claro que no! Por que deveria me importar? S por que mudou minha vida toda em dois dias?
Hugh sorriu paciente e respondeu com tom calmo:
	Fico feliz por ter entendido, querida  e passou uma grossa camada de gelia sobre sua torrada.
Ginny encarou-o por alguns segundos e sentiu que uma suspeita incmoda a invadia. Seu pai nunca fora to determinado, especialmente quando a deciso contrariava algum desejo das filhas, e com relao ao jornal, sempre a consultara antes de tomar uma deciso. Por que desta vez havia sido to diferente?
	Afinal, quem  esse novo editor, papai? Algum que eu conheo?
Ginny seria capaz de jurar que havia visto um brilho de culpa nos olhos do pai, mas ele abaixou a cabea, mordeu a torrada e, com a boca cheia, disse alguma coisa parecida com Breff Claloo.
Gelada, tomada por um pressentimento sbito, ela insistiu:
	O qu? No entendi o que disse.
Sem encar-la, Hugh respirou fundo e respondeu:
	Bret Calhoun.

CAPTULO II

Bret? Voc est brincando! Papai, por que contratou meu ex-marido para trabalhar no Herald?
	Porque ele  a melhor pessoa para o cargo.
	Ele  reprter, no editor!
	Bret decidiu mudar o rumo da carreira, querida.
	Isso  absurdo!
Hugh parecia disposto a no perder a pacincia. Com tom calmo, explicou:
	Ele candidatou-se ao emprego e foi contratado porque era o melhor entre todos os candidatos.
A surpresa inicial transformou-se em raiva e Ginny afirmou:
	No acredito no que est dizendo!
	Mas  verdade  e tossiu.  Bret decidiu sair da cidade grande e assumir um estilo de vida mais tranquilo. Alm do mais, ele quer ficar perto da famlia. Voc sabe que a me dele vive no estado de Virgnia, e Sam mora aqui mesmo em Webster.
Laura vai ter seu beb em dois meses, e ele quer estar por perto quando o sobrinho nascer.
Perplexa, Ginny soltou uma gargalhada nervosa:
	Papai, algum est fazendo voc de bobo. Bret ama a famlia, mas nunca deixaria Memphis, a menos que fosse convidado para trabalhar num jornal ainda maior.
	Voc est enganada, meu bem. Ele quer vir para c e adotar um estilo de vida mais sossegado.
	Duvido! Ser que estamos falando sobre a mesma pessoa?
Bret Calhoun, alto, louro, olhos cinzentos...
	Um excelente jornalista...
	...e um pssimo marido!
	Como pode saber? S viveu com ele durante seis meses!
Sentindo uma pontada de dor, Ginny levou as mos  cabea e suspirou:
	Papai, ser que no entende?
	 claro que sim, querida, e sinto muito. No devia ter falado sobre sua separao, mas... bem, s estava tentando fazer voc entender porque o contratei. Ele era o melhor candidato, e est realmente interessado no emprego.
	Mas ele pode viver sossegado em qualquer outro lugar do mundo!  E perguntou, invadida por um pressentimento tolo e sem fundamento:  Ele esteve doente?
	No. Por qu?
	Bret s pensaria em morar na Carolina do Sul para recuperar-se, ou coisa parecida.
	Ele quer ficar perto da famlia  Hugh repetiu.
	E por que no foi trabalhar com o irmo? Vou dizer uma coisa, papai, e quero que preste muita ateno. Eu me recuso a trabalhar com Bret!  e jogou um monte de gelia sobre a torrada.
	Por qu? Voc disse que no se importava mais com ele...
	E no me importo mesmo!  e mordeu a torrada com fora, como se quisesse provar sua indiferena.
	Ningum pode magoar algum, a menos que se esteja emocionalmente envolvido com esta pessoa, certo?
Por um momento Ginny teve a impresso de que estava sendo manobrada, mas ficou confusa ao ver o rosto inocente do pai.
	Certo, mas...
	E quando voltou para casa, no inverno passado, voc disse que nunca havia amado Bret de verdade. Jurou que tudo no havia cassado de uma paixo tola e sem consequncias.
	 verdade.
	Tambm disse que foi envolvida por ele, e que no estava realmente pronta para o casamento.
	Escute aqui, papai...
	S estou repetindo as coisas que voc disse. Por acaso entendi mal?
Irritada, Ginny compreendeu porque seu pai ganhara a reputao de ser um entrevistador impiedoso.
	No  admitiu.  Mas isso no significa que quero trabalhar com ele.
Pensei que houvesse crescido um pouco nos ltimos meses.
	Eu cresci muito!
	Pensei que fosse capaz de manter uma relao profissional com um colega de trabalho, mesmo que fosse seu ex-marido.
	E sou!
	Otimo! Ento no temos mais nada a discutir, e eu no vou precisar entrevistar outros candidatos.
	Estou achando isso tudo muito estranho. Por que eu no soube nada sobre o processo de seleo?
	Eu no quis aborrec-la. Vai desistir?
	Abandonar o jornal da minha famlia? Nunca!
	Isso  bom.
Agora Ginny tinha absoluta certeza de que havia sido manobrada. Confusa e irritada, pressionou os dedos contra as tmporas e, enquanto massageava a regio dolorida, disse:
	No entendo por que fez isso, papai.
	Porque aprendi uma coisa enquanto estive doente, querida.
A vida  muito curta, e no podemos perder tempo. Gostei dos anos que passei editando o Herald, mas agora quero fazer outras coisas. Na verdade, devo confessar que nunca amei o jornal como meu pai... ou voc.
	Eu... no sabia.
	Agora isso j no importa. Vou comear a escrever meu livro, e sei que o jornal estar em boas mos.
	Mas por que Bret Calhoun?  ela gemeu, apoiando a testa na mo e fechando os olhos.
	J disse, querida. Ele  o melhor homem para o cargo.
Hugh teve outro ataque de tosse e Ginny levantou-se novamente, em pnico. Com a mo aberta, bateu nas costas do pai at que parasse de tossir, e assustou-se ao ver que ele tinha o rosto vermelho e os olhos lacrimejantes.
	Papai, acho que devia falar com o dr. Clay. Sei que melhorou bastante, mas voc no tossia assim h semanas. Talvez esteja sofrendo uma recada.
	No seja teimosa, Ginny! Eu no quero falar com o dr. Clay. Ele  um velho teimoso e manaco, e vai me fazer tomar uma tonelada de remdios e vitaminas.
	Ele  um bom mdico.
Eu sei, mas s preciso de um pouco de ar fresco. Marquei uma pescaria com Dave Mintnor, e hoje vamos ao lago Webster para tentar pegar um daqueles enormes peixes que ele viu na semana passada.
	Pescaria? Ficou maluco? Voc mal consegue respirar!
	Eu estou bem, Ginny. Muito bem.
	Felizmente decidiu pescar com o reverendo. Pelo menos ele pode rezar pela ajuda de Deus!  disse, vendo o pai dirigir-se ao armrio no fundo da cozinha. Respirando com dificuldade, Hugh recolheu o material de pescaria e saiu sem dizer nada, deixando a filha sozinha e confusa.
Olhando para os restos da refeio sobre a mesa, Ginny no conseguia acreditar que tudo havia acontecido em menos de trinta minutos. E pensar que planejara um caf da manh tranquilo!
Aproximou-se da janela da cozinha e viu o pai partir dirigindo o velho caminho. Nunca conseguira ficar furiosa com ele por mais de dois minutos. E como poderia? Era o nico homem no mundo capaz de jogar uma bomba sobre a cabea da filha e depois ir pescar como se nada houvesse acontecido. Uma coisa era bvia: independente de sua opinio, ele estava muito satisfeito com a deciso que tomara.
Mas se queria contratar um novo editor, por que no escolhera outra pessoa? Por que justamente Bret? Sabia que havia uma razo que ele no explicara, mas no conseguia acreditar que Hugh estivesse tentando aproxim-los novamente. Fora totalmente contrrio ao casamento, pois alm de julgar a filha muito nova para um compromisso to srio, achava que a deciso havia sido precipitada. Alm do mais, sabia o quanto ela ficara decepcionada e desiludida quando abandonara Bret.
Ginny afastou-se da janela e disse a si mesma que seu pai jamais faria nada para mago-la; sabia que o casamento fora um terrvel engano, e no tentaria ressuscitar um passado to triste e doloroso.
Mas como podia saber que Bret Calhoun no estava preparado para ter uma esposa? Como podia desconfiar que ele amava o trabalho e a profisso acima de tudo? E como imaginar que, por causa dessa paixo pela carreira, ela passaria a maior parte das noites sozinha?
Afinal, por que Bret decidira trabalhar num jornal sem importncia de uma pequena cidade? No havia explicao.
Ginny pressionou as mos sobre o estmago dolorido e tentou analisar os sentimentos. A emoo mais forte era a mgoa, poisno conseguia aceitar a frustrao de ter fracassado como editora do Herald. Tentara fazer o melhor, mas os problemas haviam sido maiores que suas habilidades, e agora teria de aceitar as ordens de Bret, que j havia assistido a seu fracasso como esposa... Seria capaz de suportar tamanho castigo?
No podia negar que experimentava um certo alvio por saber que outra pessoa seria responsvel pelo jornal. Se pelo menos no fosse ele...
Pensou nisso durante alguns segundos e depois endireitou o corpo. Jamais fugira de um desafio em toda sua vida, e esta no seria a primeira vez. Havia perdido o cargo para seu ex-marido, mas isso no significava que ia fugir e esconder-se.
No era mais a garota apaixonada com quem ele se casara, e administrara o jornal sozinha durante vrios meses, ao mesmo tempo em que cuidara do pai doente. Era uma jornalista, e sua dedicao ia desde' a qualidade dos textos que escrevia at o cuidado com que escolhia suas roupas.
Tomando uma deciso sbita, foi ao quarto, apanhou a bolsa e fez o que qualquer mulher sensata faria antes de encontrar o ex-marido; foi arrumar os cabelos e comprar uma roupa nova. 
Na manh de segunda-feira, Ginny entrou no prdio do jornal sentindo-se absolutamente satisfeita com sua aparncia. Comprara a saia branca e a jaqueta vermelha no sbado, pois achara que o conjunto a faria parecer mais madura. Talvez no fosse a escolha mais adequada para o clima mido de setembro, mas queria comear a semana sentindo-se confiante e competente, mesmo que tivesse de pagar por isso com algum desconforto.
Passou pelo saguo do edifcio que abrigava o jornal de Webster h mais de oitenta anos e caminhou pelos longos corredores, tentando ignorar o ressentimento que ainda sentia pelo pai. Ele a deixara sozinha durante todo o final de semana, saindo antes do amanhecer e voltando tarde da noite, preferindo um lago cheio de peixes s perguntas e acusaes da filha. Se no soubesse o quanto ele havia estado doente e como sua sade ainda inspirava cuidados, teria reclamado da pescaria de ltima hora e o acusado diretamente, mas sabia que Hugh precisava de tempo para descansar e recuperar-se totalmente.
No entanto, no tinha a menor dvida de que ele usava seu amor e dedicao para obrig-la a concordar com os planos que tinha para o jornal... incluindo a contratao de Bret.
Pensar em rev-lo provocou uma onda de ansiedade e angstia. mas Ginny respirou fundo e disse a si mesma que tinha de vencer esse novo desafio.
Subiu os degraus com passos rpidos e passou pela porta de vidro do escritrio como um furaco.
Aquele lugar era como uma extenso de sua prpria casa. A sala da recepo fora decorada havia trinta anos, e ainda permanecia exatamente igual. O carpete marrom era to velho quanto ela, mas ainda estava em bom estado, e o balco de madeira que ia de uma parede  outra ainda abrigava a mesma recepcionista das duas ltimas dcadas, Dris Beekman. Ela era sempre a primeira a chegar na segunda-feira, porque nesse dia abria toda a correspondncia semanal antes de iniciar o expediente.
Ao lado de Dris havia uma chapa de metal com todos os cartes de ponto dos funcionrios, separados em duas colunas. Assim que um empregado chegava ao jornal, o guarda da portaria informava  recepcionista e ela mudava o carto da coluna do ausente para a do presente. Uma olhada rpida foi o bastante para Ginny perceber que Dris era a nica no prdio... com a provvel exceo de Bret Calhoun.
Apressada, aproximou-se do balco da recepcionista e perguntou com tom ansioso:
	Onde ele est?
Dris ergueu os olhos da pilha de cartas que estava abrindo, tirou os culos e fitou-a com ar de censura.
	Boa dia para voc tambm  disse.  Meu final de semana foi muito agradvel, obrigada.
Envergonhada, Ginny apoiou as mos sobre o balco e explicou:
	Desculpe, Dris, mas estou muito nervosa.
	Sabe que eu nem havia percebido?  riu a recepcionista, olhando para as unhas rodas da jovem jornalista.
Rpida. Ginny fechou as mos c odiou-sc por ter feito aquela aposta com Dris. Jurara que seria capaz de deixar de roer as unhas, e agora tinha de pagar um dlar cada vez que quebrava a promessa. Com um suspiro teatral, abriu a bolsa e jogou uma moeda na caixa metlica que a recepcionista usava como cofre.
	Tem ideia de quanto dinheiro j ganhei com essa brincadeira?
	Vinte dlares  Ginny respondeu mal humorada.
	Vinte e seis.
	Mas desta vez eu tenho um bom motivo. Isso tudo me deixa nervosa, e  tudo to...
	Opressivo  ofereceu Dris, tentando ajudar.
Ginny concordou com a cabea, grata por poder abandonar a postura profissional por alguns instantes e dedicar-se a uma conversa mais amigvel. Sempre confiara cm Dris que, na verdade, havia sido uma espcie de segunda me. Fora em seu ombro que havia chorado quando o casamento fracassara e, no sbado, depois de conversar com Carrie, telefonara para ela e falara sobre a aposentadoria prematura de Hugh. Os outros membros da administrao seriam informados durante uma reunio naquela manh.
	E ento, Dris? J o viu?
	J, e inclusive tivemos uma rpida conversa, Uma conversa? E qual foi o assunto?
	O jornal,  claro.
	E o que ele disse?
Dris suspirou com impacincia:
	Escute aqui, eu no sou espia. Por que no vai conversar com ele e tira suas prprias concluses?
	Porque j tirei todas as concluses que podia sobre Brct Calhoun!
	Isso foi h meses, e as coisas mudaram muito. Alem do mais, qualquer um sabe que trabalhar para Bret ser uma excelente maneira de ganhar experincia.
	Est brincando!  Dris estava repetindo o que Carrie havia dito no sbado, mas as duas podiam dar-se ao luxo de serem otimistas. Ela tinha de ser realista.  De qualquer forma, vou ter de encontr-lo mais cedo ou mais tarde. Acho que ele est na sala de reunies.
Sem esperar pela resposta, virou-se com preciso militar e seguiu em frente, disposta a deixar a bolsa cm seu escritrio antes de ir conversar com Brct na sala de reunies. A enorme sacola no combinava com a imagem que estava tentando passar, e ele sempre brincara dizendo que continha mais inutilidades que uma caixa de brinquedos. Puro exagero!
Antes que chegasse ao escritrio, passou pela sala do editor e notou que a porta estava aberta. Era estranho, pois aquela sala no era usada desde que seu pai adoecera. De maneira automtica, aproximou-se para fechar a porta e quase caiu ao ver Bret sentado na cadeira que fora de Hugh. Ele estava virado para a janela e seus ps estavam apoiados no parapeito, como se estivesse numa cadeira de praia, e no num local de trabalho.
Nos cinco meses em que haviam trabalhado no mesmo jornal, ele como reprter e ela como estagiria, nunca o vira parado. Passava todos os momentos correndo atrs de detalhes, telefonando para suas fontes e escrevendo, mas agora parecia satisfeito por simplesmente deixar o tempo passar.
As roupas eram ainda mais surpreendentes. Em Memphis, Bret possua um guarda-roupa caro e variado, cheio de ternos feitos por estilistas famosos e sapatos costurados  mo. Agora ele usava cala jeans, uma camisa branca cujas mangas haviam sido dobradas at os cotovelos e tnis.
Ao observ-lo em silncio, teve a impresso de que seria dominada pelas emoes conflitantes: tristeza, mgoa e, acima de tudo, raiva. Julgava ter enterrado todos os sentimentos por Bret, mas bastou pousar os olhos nele para que retornassem com fora total, apertando seu corao como dedos gelados.
Ele no sabia que estava sendo observado, e Ginny decidiu aproveitar para olhar tudo o que pudesse. Vira Bret pela ltima vez havia sete meses, quando ele chegara  casa de seu pai exigindo explicaes sobre sua partida. As respostas de Ginny no haviam servido para aplacar seu orgulho ferido e ele partira, depois de acus-la de covardia.
A lembrana provocou uma pontada de dor e ela abaixou a cabea. Quando voltou a levant-la, percebeu que o vidro da janela refletia todo o espao da sala, o que significava que Bret sabia que ela o observava.
Ele virou-se e encarou-a, e Ginny percebeu que seus olhos continuavam intensos e brilhantes como antes. Controlando-se com dificuldade, entrou na sala e cumprimentou:
	Ol, Bret. Como vai?
	Bem, obrigado  e levantou-se.  Estava mesmo esperando por voc.
Ginny tremia por dentro, mas estava determinada a no demonstrar as emoes. Com calma fingida, apoiou os dedos na ala da bolsa e comentou:
	Eu no estou atrasada...
	Eu sei que no  sorriu.
Bret estava diferente, mais relaxado, e parecia at... feliz. Invadida por um sbito e estranho ressentimento, ela sorriu com frieza e comentou:
	Voc est com uma aparncia tima.
	E voc est ainda melhor.
	Eu... obrigada.
	Mas no devia ter cortado os cabelos. Eu preferia quando os usava abaixo dos ombros.
Esta era uma velha discusso, mas pelo menos neste assunto Ginny sentia-se a vontade.
	No era voc quem tinha de lav-los e pente-los  respondeu com um sorriso.
	Ah, mas eu me ofereci, lembra-se?
Lembrar daquelas mos em seus cabelos provocou um arrepio.
	Isso faz parte do passado  Ginny respondeu com raiva.
tentando encontrar um assunto mais profissional.  Fiquei surpresa ao ver voc relaxando em horrio de expediente.
	Seu pai no disse que eu estava disposto a levar uma vida mais calma?
	S acredito vendo... Alm do mais, aqui costumamos trabalhar com os ps no cho, no na janela.
	Acontece que eu sou o editor, o chefe, e posso fazer o que eu quiser.
	Inclusive ocupar o escritrio que era de meu pai?
	Inclusive. Hugh me deu carta branca, e meu nico objetivo e fazer o Herald voltar a andar nos trilhos. Quero transformar este jornal numa mquina de fazer dinheiro e numa voz forte da comunidade local.
Ginny abaixou a cabea, tentando esconder a dor que sabia estar estampada em seu rosto.
Fizera tudo o que podia para tentar alcanar os mesmos ob-jctivos nos ltimos meses, mas havia fracassado, e seu pai sabia disso. Na verdade, quase toda a populao de Webster conhecia seu fracasso. O que realmente a irritava era o fato de todos justificarem sua incapacidade dizendo que era uma mulher, e no por ser inexperiente na administrao de um negcio. Sabia que teria conseguido. S precisava de um pouco mais de tempo.
Bret aproximou-se e segurou uma de suas mos, assustando-a. Tentou livrar-se, mas ele a segurou com mais fora.
	Ningum esperava que fosse perfeita, Ginny.
Horrorizada, sentiu que as lgrimas queimavam seus olhos e ameaavam vencer a barreira do controle.
	Eu fiz o que pude  respondeu, virando a cabea e escondendo o rosto.
	Eu sei que fez  e soltou-a.  Por que no me mostra o prdio?
Ela afirmou com a cabea e pediu que esperasse um instante, enquanto ia guardar a bolsa. Em seu escritrio, contemplou a velha mesa de madeira que parecia ter sado da primeira Guerra Mundial e divertiu-se com o contraste criado pelo terminal de computador sobre ela. Deixou a bolsa no armrio, olhou-se no espelho da parede e surpreendeu-se ao ver que Bret estava parado na porta, observando-a.
	Estou pronta  disse apressada, tentando mostrar indiferena.
Sem responder, Bret sorriu e afastou-se para que ela pudesse passar pela porta. Ao chegar ao corredor, Ginny decidiu assumir uma postura distante e perguntou:
	J trabalhou num jornal de cidade pequena?
Ele encarou-a com expresso surpresa, como se estivesse tentando decifrar o significado oculto da pergunta.
	Voc sabe que no, Ginny.
Era bvio que ele no ia facilitar a representao, mas Ginny decidiu ir em frente. Afinal, ensaiara o pequeno discurso durante todo o final de semana.
	 bem diferente do que j conhece. Um jornal de cidade pequena cobre muito mais que simples notcias.  a identidade da cidade, e o lao que a liga ao resto do mundo.
	 um meio de informao, Ginny, nem mais, nem menos.
No importa se as notcias so sobre uma liquidao na loja de departamentos da esquina ou sobre o maior assalto do sculo.
	No  to simples como est dizendo.
	Eu sei que este jornal pertence  sua famlia h quatro geraes, mas isso no o toma diferente dos outros. Isso  trabalho, Ginny. no o seu beb!
	Veja quem fala! Era voc quem passava a maior parte do tempo na redao em Memphis. E quando no estava l, vivia correndo atrs de novas fontes ou tentando infiltrar-se nos bandos e gangues da cidade, e eu nunca via...  e parou. Aquela era outra velha discusso, e sobre esse assunto jamais haviam conseguido entrar num acordo.
Fitando-a de maneira intensa, Bret disparou:
	Foi por isso que me deixou? Por causa do meu trabalho?
	Bret... Se vamos trabalhar juntos,  melhor deixarmos nossa histria pessoal fora do escritrio.
	No diga! E como pretende conseguir esse milagre?
Ela no respondeu. Limitou-se a conter as emoes e seguir em frente, dirigindo-se  sala da redao. Orgulhosa, parou para mostrar os terminais de computador que haviam sido instalados alguns anos antes, indicando as mesas onde os trs reprteres costumavam trabalhar. Os trs estavam fora, realizando as matrias que haviam sido aprovadas na reunio de pauta da semana anterior, e por isso a sala estava deserta.
	Este lugar vira uma verdadeira loucura nas sextas, segundas e teras, porque o Herald sai sempre na quarta-feira. Mesmo assim,  claro que a correria no se compara ao que vamos no jornal de Memphis.
	Imagino que no. Por isso quis vir para c.
	No pode imaginar como fiquei feliz!  ela exclamou com ironia, fingindo ignorar o sorriso divertido que viu nos lbios dele. Dirigindo-se  porta seguinte, informou:  Esta  o departamento de classificados.
Bret questionou-a sobre o preo dos anncios e sugeriu um pequeno aumento, fazendo-a arrepender-se por no ter implantado a medida na semana anterior, quando tivera a mesma ideia.
O Herald era um dos poucos jornais pequenos que possua suas prprias mquinas de impresso, apesar de velhas, e quando Ginny levou-o para conhecer o grande salo onde funcionavam, ele exclamou:
	Mas isso aqui est uma baguna!
	E sempre assim  ela explicou, relaxando um pouco ao ver que ele sorria.  Na sexta-feira passada os impressores tiveram de bater numa das mquinas com um cano para faz-la funcionar, e a tinta voltou em cima deles. Foi um verdadeiro cspetculo.
	Os impressores sempre so um cspetculo  Bret riu. E conseguiram fazer a mquina funcionar?
Acho que a coitada voltou a imprimir por instinto de sobrevivncia.
Por um momento, Ginny teve a impresso de ter voltado no tempo, para uma poca em que riam juntos com frequncia. Olhou para o rosto de Bret, percebeu que ele pensava a mesma coisa e o sorriso morreu em seus lbios.
Apreensiva, de repente deu-se conta de que estava novamente perto do homem que destrura seus sonhos.
Como se pudesse ler seus pensamentos, Bret sussurrou:
	Ginny...  e ergueu a mo para toc-la no rosto, mas ela  retrocedeu. 
	Venha, vamos ver a sala escura  e apontou para uma porta de ferro no final do corredor.  Temos de tomar cuidado...
	Eu sei como devo me comportar numa sala escura  disse ele, caminhando a seu lado com passos decididos. Depois de bater para certificar-se de que no havia ningum revelando filmes, abriu a porta e empurrou-a para dentro.  Vamos ver que tipo de equipamento temos aqui.
	Espere um minuto. Voc no pode...
	No posso o qu?  ele perguntou, batendo a porta com certa violncia.

	... bater a porta. Parabns, Bret. Acabou de nos trancar aqui dentro.
	Eu sei. Dris me avisou sobre a fechadura quebrada.
	Ento... por que diabos fez isso?
	Porque ns precisamos conversar, e eu achei que essa seria a nica maneira de obrig-la a me dar todas as respostas.
	Respostas?
	Isso mesmo. Quero saber por que me abandonou.

CAPITULO III

Bret, este no  o lugar certo.para...
Tudo bem, ento d uma sugesto para o local e a hora para esta conversa  ele cortou, incapaz de esconder a irritao que sentia.  Voc no quis discutir o assunto no inverno passado, quando vim procur-la, e eu fui embora sem uma explicao. Cheguei do hospital, encontrei o apartamento vazio, um bilhete sobre a mesa, e descobri que minha esposa havia me abandonado! Acha que no tenho o direito de saber a razo?
Nervosa, Ginny percebeu que era intil fugir, porque acabaria tendo de enfrentar a realidade com franqueza e maturidade.
	Eu passei semanas repetindo que no suportava mais conviver com os riscos que voc corria e com as longas horas que passava trabalhando. Quando foi ferido naquele tiroteio entre a polcia c a quadrilha de traficantes de drogas, no pude mais aguentar. Agora sei que cometi o engano...
	De me abandonar! Concordo plenamente!
	... de me casar com voc.
Bret havia se aproximado enquanto falavam, mas retrocedeu dois passos e encarou-a com um misto de raiva e decepo.
	Pensei que houvesse se casado comigo por amor.
Ginny abaixou a cabea c olhou para as prprias mos trmulas:
	Eu tambm, mas estava enganada  e encarou-o, os olhos implorando compreenso.  Eu tinha vinte e dois anos, mas era boba c ingnua. O que eu sabia da vida?
	Sabia o bastante para dizer o sim.
	Casamento  mais que uma simples cerimnia. 
	Eu devia ter imaginado que no pretendia ficar comigo quando decidiu conservar o nome McCoy.
	Eu precisava preservar minha identidade.
	Mudar de nome no faz ningum perder a identidade!
	No meu caso era diferente, porque...
	Porque no confiava em mim, e nenhum casamento sobrevive sem um mnimo de confiana.
	Eu devia ter certeza de que no iria sair ferido de suas maluquices?  gritou. Em seguida ergueu as duas mos e respirou fundo  Esquea. Estamos comeando mais uma discusso.
	Prometo que esta ser a ltima de uma longa srie  disse ele com tom exasperado.
	Bret, no sei como conseguiremos trabalhar juntos...
	No diga! Est pensando em abandonar o Herald.
	 claro que no!
	Ento trate de encontrar uma soluo, porque eu tambm no vou sair daqui. Acabei de chegar, e se voc for embora... estar fugindo novamente.
Odiava ter de admitir, mas ele estava certo. Irritada, Ginny aproximou-se da porta e bateu com fora, chamando por Dris, enquanto o crebro trabalhava com desespero em busca de uma soluo, qualquer coisa que possibilitasse a permanncia de ambos. De repente experimentou uma raiva intensa pelo pai, que a colocara naquela situao, mas em seguida pensou melhor e concluiu que, mais cedo ou mais tarde, teria de enfrentar Bret e seus sentimentos confusos.
Sentindo que ele a tocava no ombro, virou-se rapidamente e fitou-o com olhos assustados.
	E ento, Ginny, o que decidiu? Vai fugir outra vez?  ele perguntou com um sorriso sarcstico.
	No!
	E o que pretende fazer?
	Vamos trabalhar juntos. Somos adultos, profissionais, e se voc pode manter a calma, eu tambm posso.
	Ah, finalmente!
	Finalmente o qu?
	Comeou a pensar em voc mesma como uma jornalista, uma profissional. Quando isso aconteceu?
No tinha a menor inteno de aceitar provocaes e, por isso, bateu na porta novamente. Bret segurou-a pelo pulso, provocando uma reao intensa e imediata. Virando-se com os olhos cheios de raiva, ela perguntou:
	O que pensa que est fazendo?
	Aqui est algo que no mudou. Ainda ri as unhas quando fica nervosa. O que provocou tanta tenso? A certeza de um reencontro entre ns?
Furiosa, puxou a mo com violncia e soltou-se. Bret estava certo, mas preferia morrer a admitir a verdade diante dele. Tentando controlar-se, Ginny limpou a garganta para tornar a voz mais firme e disse:
	Escute aqui, somos duas pessoas adultas, dois profissionais, e teremos de trabalhar juntos. Qualquer coisa que tenha acontecido entre ns, em nossas vidas pessoais, deve ficar fora do escritrio.
	Pelo amor de Deus, Ginny! Isso aqui  s um pequeno jornal na Carolina do Sul, no uma multinacional de Detroit!
	Voc entendeu o que eu quis dizer.
 Est dizendo que podemos trabalhar juntos, que voc aceitar minhas ordens, e que no devemos permitir que nossa vida pessoal nos afete?
	Ns no temos uma vida pessoal! No uma vida em comum, pelo menos.
	Ento vamos ver se entendi. Est dizendo que nossas vidas separadas devem permanecer exatamente assim... separadas?
Ginny tinha a estranha sensao de que estava prestes a cair numa armadilha, mas afirmou com a cabea e disse:
	Exatamente. No vamos nos encontrar fora do escritrio.
Portanto, o passado no tem a menor importncia para o nosso trabalho.
	Talvez... Vamos ver.
Ginny ia perguntar o que ele queria dizer com isso, mas nesse momento Dris abriu a porta.
	Desculpem  disse, examinando atentamente o sorriso do a novo chefe e o rosto vermelho da filha do proprietrio do jornal.
 O telefone tocou no momento em que ouvi vocs batendo, e tive de atender antes de vir abrir.
	No faz mal  Bret respondeu, segurando a porta e esperando que Ginny sasse.  Por favor, Dris, telefone para um chaveiro e pea o servio para hoje, est bem?
	Vou ligar agora mesmo.
Ginny nem notou o olhar curioso de Dris em sua direo, pois estava ocupada demais tentando colocar um pouco de ordem nos pensamentos. Respirou fundo e esperou que Bret retomasse a discusso, mas ele surpreendeu-a novamente.
	Tenho de voltar para o escritrio. Convoque uma reunio para as nove em ponto, est bem? Quero conhecer a equipe. E por favor, Ginny, providencie todas as edies do Herald nos ltimos dois meses. Quero ver quais so as caractersticas do jornal e preciso saber em quais projetos andou trabalhando.
Surpresa com o tom subitamente profissional, ela relaxou e disse:
	Vou providenciar imediatamente.
	timo. Avise quando o pessoal estiver reunido.
Bret se foi e ela encostou-se  parede para recompor-se. Seria pior do que havia imaginado, mas sabia que estava certa; as coisas seriam muito mais simples entre eles se mantivessem um relacionamento estritamente profissional e evitassem qualquer tipo de encontro social. Agora s restava descobrir o que faria com aquele vazio que ameaava domin-la. 
A casa antiga e slida nunca parecera to aconchegante. As sombras de final de tarde caam sobre as paredes de tijolos vermelhos, criando desenhos estranhos e curiosos no solar que sempre fora seu lar.
O calor intenso do dia finalmente dava lugar a um frescor agradvel, e Ginny sentiu-se subitamente feliz ao estacionar o carro na garagem de dois lugares. O automvel de Hugh no estava l.
	Covarde  murmurou para si mesma, enquanto apanhava a bolsa e trancava o cairo.  Est fugindo de mim, no ?
Entrou, colocou uma caarola de frango no forno e preparou a salada para o jantar. Enquanto trabalhava, apreciava os reflexos brilhantes criados pela superfcie da piscina no quintal e lamentava a chegada do outono, pois logo estaria frio demais para o mergulho de final de tarde.
Terminou de preparar a salada, ligou o forno e subiu para mudar de roupa. Vestiu o maio, prendeu os cabelos lisos num rabo de cavalo, colocou a touca de borracha, apanhou a toalha e desceu.
Assim que mergulhou, Ginny sentiu a tenso desaparecer de 'mediato. Nadou durante alguns minutos, desfrutando a agradvel
sensao da gua fria sobre a pele quente e suada. Depois de algum tempo virou-se de costas e ficou flutuando, os olhos fechados e as pernas movendo-se lentamente.
Finalmente decidiu que o dia no havia sido to terrvel. Recebera uma infinidade de olhares curiosos dos outros membros da equipe e fora bombardeada com todo o tipo de perguntas, mas j esperava esse tipo de reao e havia se preparado adequadamente. Todos mostraram-se preocupados, pois julgavam imprudente entregar a direo do jornal que sempre pertencera  sua famlia nas mos de seu ex-marido. Ginny simplesmente explicara que a deciso havia sido de seu pai, e que Bret merecia a confiana de todos. Aliviada, percebera que isso os tranquilizara e evitara novas perguntas, mas sabia que a novidade se espalharia por Webster como fogo sobre a palha.
Durante a reunio, Bret havia sido simptico e profissional. Ginny sentara-se num canto da sala e ouvira tudo com muita ateno, tentando conciliar esse novo Bret com o homem com quem se casara. Ele parecia ter perdido a ambio que antes o dominava, e mostrara-se calmo e confiante, impressionando a equipe com os planos que traara para o Herald. Ela tambm ficara impressionada, mas com as mudanas que notava a cadaj instante.
Embora ainda sentisse o gosto amargo do fracasso e do ressentimento, Ginny estava at aliviada por estar livre da carga representada pelas responsabilidades com o jornal. Agora era Bret quem a carregava, e parecia faz-lo com a mesma facilidade com que a tomara nos braos para danar no dia em que se conheceram.
Irritada, afastou a lembrana dolorosa e voltou a pensar na reunio daquela manh.
Os outros reprteres haviam mostrado respeito pelos conhecimentos e pela experincia de Bret, os funcionrios da grfica no se preocuparam em esconder o alvio por terem novamente um homem no comando, e as mulheres do departamento de classificados pareciam prestes a atirar-se aos ps do novo chefe.
Lembrando-se do cime que experimentara ao notar o interesse e a admirao das outras, Ginny mergulhou e nadou por baixo d'gua, vindo  tona apenas para respirar. Finalmente aproximou-se da borda e estendeu a mo para segurar-se, mas os dedos tocaram num... sapato! Sobressaltada, abriu os olhos vermelhos de cloro e viu-se diante de Bret Calhoun.
Ele estava abaixado, os braos apoiados sobre os joelhos e as pernas separadas.
	Ol, querida  disse com um sorriso.  Precisa de ajuda com o jantar?
	Bret! O que est fazendo aqui?
	Oferecendo ajuda para o jantar  e olhou em volta com verdadeiro interesse, observando as petnias que ela havia plantado em torno da piscina.  Vejo que andou praticando jardinagem. Eu trouxe aquela azalia que compramos na nossa lua-de-mel. Est na casa de Sam e Laura, mas vou traz-la para c amanh mesmo.
	No  necessrio  disse ela, lembrando-se da noite em que haviam comprado a flor de folhas planas e ptalas coloridas.
 Afinal, o que veio fazer aqui? Algum problema no jornal?
	Ele  meu convidado  informou Hugh, parado na porta.
Ginny teve certeza de que, se pudesse alcan-lo naquele momento, certamente o teria estrangulado.
	Ol, papai. Onde andou se escondendo?  e indicando Bret, feliz com o tom controlado da voz, prosseguiu:  Voc o convidou para o jantar?
	Para mais que isso  Bret interferiu.  No sabe que  falta de educao falar sobre as pessoas como se elas no estivessem presentes?
	O que quer dizer com mais que isso?
	Vou alugar o apartamento sobre a garagem - e sorriu, tentando mostrar-se inofensivo.
	O qu?
	 verdade. Hugh disse que o apartamento est vazio e que eu poderia us-lo.
Havia um pequeno apartamento mobiliado sobre a garagem de duas vagas que, at pouco antes, havia sido alugado por Diana Sheldon, a professora de arte do colgio local. Estava vazio desde que ela encontrara uma casa na rua da escola.
Desviando a ateno de Bret, que de alguma forma conseguia mostrar-se triunfante e solidrio ao mesmo tempo, Ginny olhou para o pai e disse:
	Ser que podemos conversar um minuto?
	Claro, querida. Qual  o problema?  e sorriu com ar confuso, como se fosse incapaz de imaginar o motivo da irritao da filha.
 melhor irmos at l dentro.
Notando a rigidez em seu rosto, Hugh afirmou com a cabea e abriu a porta.
	Pode nos dar licena por alguns minutos, Bret?  pediu.
	 claro  ele respondeu com tom amigvel, apesar do olhar contrariado.
Ginny apoiou as mos na borda da piscina e comeou a erguer o corpo, e j havia concludo metade do movimento quando percebeu que Bret inclinara-se para ajud-la. Mergulhando novamente, disse com voz rspida:
	Posso sair sozinha, obrigada.
A princpio ele apenas ergueu a sobrancelha com expresso surpresa, mas depois retrocedeu e limitou-se a observar os movimentos de Ginny, seu corpo molhado e seu temperamento explosivo. Consciente de estar sendo observada, ela agarrou a toalha e enrolou-a em tomo do corpo. Sem olhar para trs, caminhou at a porta da cozinha, entrou e fechou-a cuidadosamente atrs dela e do pai.
Assim que teve certeza de que no podiam ser ouvidos pelo visitante, Ginny ignorou a poa de gua que formava-se no piso de ladrilhos e encarou Hugh:
	Papai...
	Por favor, querida, no olhe para mim como se eu acabasse de colocar uma raposa no galinheiro.
	Pois foi exatamente o que fez! Por que o convidou para ficar aqui? Pensei que ele fosse hospedar-se na casa de Sam e Laura.
Hugh ergueu as mos num gesto de defesa e explicou:
	Voc sabe que no daria certo. Eles vo ter um beb, querida. 
Alm do mais, Laura torceu o tornozelo esta tarde e o mdico receitou repouso por alguns dias. Se Bret fosse para l, ela teria muito trabalho.
	Sinto muito, papai, e posso entender a posio de Laura c Sam. Mas por que ele tem de ficar justamente aqui? H um hotel na cidade, e aposto que Bret encontraria um apartamento para alugar sem nenhuma dificuldade.
	 exatamente o que ele est fazendo. Alugando o apartamento sobre a garagem. Na verdade, Bret vai se mudar ainda hoje.
	Que alegria!
	No sei por que est to aborrecida.
	Ultimamente voc tem tido dificuldade para compreender as coisas mais bvias  e tirou a touca de borracha da cabea, soltando os cabelos.
Pegou uma das pontas da toalha e tentou conter a gua que escorria por suas pernas e, enquanto enxugava-se, sentiu um ardor conhecido nos olhos. Os ltimos trs dias haviam sido um verdadeiro desastre, e era como se no existisse'um lugar para onde pudesse ir ou algum com quem conversar. Dividida entre a tristeza e a irritao, lutando corajosamente para conter as lgrimas, encarou o pai e disse:
	No sei por que est fazendo tudo isso.
Hugh respondeu em voz baixa e cheia de amor:
	 bobagem manter um apartamento vazio quando h algum que pode us-lo. Voc disse que podia trabalhar com Bret, e eu achei que tambm seria capaz de morar perto dele.
	Perto? Isso  bem mais que perto!
	Qual  a diferena? Talvez tenha cometido um engano ao deix-lo, mas isso faz parte do passado... no ?
	Eu no cometi engano nenhum! E caso tenha esquecido, voc ficou furioso quando eu decidi me casar com Bret. Tentou me convencer a desistir, e tambm no se mostrou nada aborrecido quando eu voltei para casa, no inverno passado.

	Eu estava com pneumonia e no tinha energia para me aborrecer com coisa nenhuma. E como acabei de dizer, esse casamento faz parte do passado, certo?
	Certo.
	Bret vai ter a prpria vida, amigos, talvez at algumas namoradas, e voc s ter de v-lo no escritrio.
Ginny sabia que o pai estava dizendo a verdade. Mas por que a ideia provocava tamanho desconforto?
Irritada com os sentimentos ambivalentes, apertou a toalha contra o corpo e admitiu que Hugh estava absolutamente certo. Mesmo assim, comeava a imaginai" se a doena recente havia afetado sua sade mental. Invadida por um pressentimento sbito, encarou-o e perguntou:
	Papai, voc no. est tentando nos aproximar, est?
Ele retrocedeu com expresso chocada e magoada, e Ginny comeou a sentir os primeiros sinais de culpa por t-lo acusado.
	E claro que no! Se eu estivesse interessado nisso, teria tentado convenc-la a voltar para ele no momento em que chegou aqui.
	Como, se mal podia erguer a cabea do travesseiro?
	Eu nunca interferi em suas decises, nem mesmo quando ainda estava na escola!
	 verdade  concordou relutante, tentando imaginar onde ele queria chegar.
	Sei que  uma mulher madura e sensata, que pensa com cuidado antes de tomar uma deciso importante. No teria deixado seu marido se no tivesse uma boa razo, e eu respeitei seu direito de no falar sobre o assunto.
Ginny fitou-o e tentou tranquilizar-se, mas havia algo no tom de voz do pai que a enervava profundamente. Hugh sempre vivera das palavras, e sabia que ele no estava apenas apontando caractersticas favorveis de sua personalidade.
	 verdade, voc nunca tentou interferir  concordou.
	Ento, por que acha que eu mudaria agora? Por que no acredita que eu aluguei o apartamento vazio para conseguir um dinheiro extra?
	E possvel...
Hugh tossiu.
	Est vendo?  disse, entre um ataque e outro.  Meus motivos no tm nada de secretos  e tossiu outra vez.
	Papai, voc foi ver o dr. Clay?
	Eu estou bem, e no preciso de mdico nenhum  afirmou, limpando as lgrimas que corriam pelo rosto vermelho. Quando o ataque finalmente passou, ele respirou fundo e disse:  Acho que vou descansar um pouco antes do jantar. Voc se importa?
	 claro que no. S no entendo por que est tendo esta recada  e segurou o brao dele, ajudando-o a subir os primeiros degraus.  Num minuto est bem, e de repente comea a tossir como se fosse explodir!
	Isso  normal, querida. Eu s preciso descansar  e continuou subindo, lentamente e com expresso penosa.  Ser pode ajudar Bret a se ajeitar no apartamento?
	E claro, papai, no se preocupe com nada  e continuou segurando seu brao ate que chegassem ao topo da escada.
Mas ainda acho que devia ir ao medico.
	Pare com isso, Ginny! Eu estou bem.
Precisa de alguma coisa?  perguntou, acompanhando-o at a porta do quarto.
	No, obrigado. V ajudar Bret, est bem?  e desapareceu no interior escuro do dormitrio, fechando a porta antes que ela pudesse responder.
Ginny foi mudar de roupa e s ento percebeu que havia sido manipulada.
Quando Hugh comeara a tossir, ela abandonara a discusso e fizera exatamente o que ele queria. A tosse parecia autntica e o rosto vermelho era assustador, mas duvidava de que ele estivesse realmente doente. Ento lembrou-se de como havia sido quando sua me morrera e fechou os olhos, invadida por um pnico sbito. Se perdesse o pai...
Preocupada, apanhou o telefone do quarto e discou o nmero do mdico que cuidava de toda a famlia. O dr. Clay atendeu, ouviu suas queixas e garantiu que Hugh havia se recuperado com-pletamente, mas sugeriu que ela o levasse ao consultrio para alguns exames, recomendando que ele evitasse o stress. Ginny desligou certa de que no conseguiria levar o pai ao mdico, pois Hugh insistia em dizer que estava bem. Alm do mais, seu pai no precisava se preocupar com stress. No sofria por isso, porque normalmente era ele quem o provocava!
Depois de escovar os cabelos e calar os sapatos, desceu e surpreendeu-se ao encontrar Bret na cozinha, retirando a caarola do forno.
	Receita nova?  ele perguntou, deixando a vasilha quente sobre a pia de mrmore.
Ginny precisou respirar fundo antes de responder:
	No. Estava no caderno de minha me.
	Voc nunca fez isso quando estvamos casados.
	Fiz, sim, mas voc nunca estava em casa no horrio das refeies.
	Que pena... Se importa se eu experimentar agora?
	No. Pegue o prato no armrio mais alto e os talheres na gaveta, bem atrs de voc  c dirigiu-se  porta.
Ao passar por Bret, ele segurou-a pelo pulso c perguntou:
	Onde vai?
	Preparar o apartamento.
	Por que no jantamos juntos? Voc trabalhou o dia inteiro, c deve estar morta de fome.
Estava, mas sabia que seria incapaz de engolir qualquer coisa enquanto ele estivesse por perto. Alarmada com a reao do corpo ao toque daquelas mos, inclinou o corpo para trs e disse:
	Quer me soltar, por favor?
	Por qu? Isso  to agradvel  e sorriu, pousando a outra mo em sua cintura.
	Eu no acho.
	Prefere fugir outra vez?
	Da minha prpria casa? No seja ridculo!
	Pensei que sua casa fosse a minha. Pelo menos foi o que o padre disse no nosso casamento...
	Ah, ento voc tambm ouviu? E por que nunca estava em casa?
Ele sorriu:
	Agora estou aqui.
	No acredito que pretenda ficar realmente.
	S o tempo vai dizer...
	Era esse o problema!  explodiu, torcendo o que ele havia dito para tirar alguma vantagem.  Voc no tinha tempo para nada! E quer saber de uma coisa? No quero falar sobre esse assunto!
	Voc est apenas adiando o inevitvel.
	Ento vou adiar eternamente. Posso ser obrigada a trabalhar com voc... para voc, mas nosso passado vai continuar sendo s isso: passado! E completamente separado de nossa relao profissional.
	Voc j disse isso ontem, na sala escura.
	E voc certamente no ouviu.
	Eu nunca escuto suas bobagens. Onde est Hugh?
Feliz por poder mudar de assunto, Ginny respondeu:
	No quarto, descansando. Ele ainda tosse muito, e tem ataques de fraqueza.
	Seu pai no se recuperou da pneumonia?
	Eu achava que sim, mas ultimamente ele parece ter piorado, c o velho teimoso se nega a ir ao medico.
	Ele est se aposentando, c vai ter muito tempo para descansar e recuperar a sade. Por que no o esperamos para o jantar?
Enquanto isso, podemos comear a levar minhas coisas para o apartamento. Onde est a chave?
	No gancho, atrs da porta.
Bret puxou-a pela mo, pegou a chave e levou-a para fora. Essa era uma caracterstica dele que certamente no havia mudado: quando queria alguma coisa, nada o impedia de t-la.
Ao chegarem ao porto, Ginny parou para observar o pequeno carro esporte vermelho estacionado junto  calada. Quando eram casados, Bret possua um Jeep que certamente era mais apropriado para uma mudana, pois o pequeno automvel estava lotado at o teto de roupas e objetos pessoais. Aliviada, teve a impresso de que a mudana no era to permanente como ele dizia, pois Bret no podia ter levado tudo o que tinha num veculo daquele tamanho.
Notando a expresso de seu rosto, ele explicou:
	Tive de vender o Jeep. A caixa de cmbio estava arruinada, e o conserto sairia mais caro que um carro novo. Vendi para o garoto da oficina mecnica  e abriu a porta do automvel, retirando algumas roupas e cabides. - Sei o que est pensando.
O assento do Jeep era perfeito para um namoro, e estes vo acabar com nossas costas. Mas se tiver urgncia,  s me avisar e eu garanto que vou pensar em alguma coisa mais confortvel.
	No seja idiota!  explodiu, sentindo o rosto vermelho e
escondendo-se atrs da pilha de roupas que ele entregara.
A combinao das palavras e do aroma desprendido pelas peas provocaram uma onda de nostalgia, e Ginny sentiu-se subitamente fraca. Nos momentos de solido, aquelas eram as duas coisas de que mais sentia falta, e ele provavelmente a fizera carregar as roupas de propsito.
Firme, determinada a no fazer o jogo de Bret, virou-se e comeou a caminhar com cuidado, dirigindo-se ao apartamento. Pensou em preveni-lo sobre a decorao que Diana Sheldon havia feito, mas decidiu fazer uma surpresa.
Quando j estava se aproximando da garagem, Ginny gritou:
	Por que no traz o carro para c? Assim poder descarreg-lo sem tanto esforo.
	Como quiser, chefe  ele riu.
Irritada, lembrou-se de que no havia chefiado sequer o prprio destino nos ltimos trs dias.
Equilibrando a pilha de roupas, subiu os seis degraus que levavam ao pequeno apartamento e, depois de alguns segundos de desespero, conseguiu abrir a porta e entrar. Torcendo o nariz ao sentir o cheiro de umidade, deixou as roupas sobre o sof e olhou em volta, observando a moblia simples e prtica. Abriu as janelas para ventilar o ambiente e, quando terminou, Bret j estava parado na soleira.
	Mas o que  isso?
Apesar de tudo, Ginny no pde conter o riso ao ver a surpresa estampada no rosto dele. Carregando outra pilha de roupas, Bret olhava em volta com ar atnito, como se estivesse entrando numa espcie de nave espacial.
	Papai no havia dito nada?  perguntou, vendo-o deixar as peas sobre o sof e olhar em volta mais uma vez.
Pela primeira vez nos ltimos dias, sentia-se no controle da situao. J conhecia aquela sala nos mnimos detalhes, mas vi-rou-se e examinou-a mais uma vez, divertindo-se com o que via.
O cho, o teto c as paredes eram cobertos por grandes murais, e cada um deles representava uma estao do ano, retratando rvores, plantas e animais tpicos. O painel do inverno era composto por galhos secos que inclinavam-se sobre finas camadas de gelo, e a impresso era to real que ela sempre sentia arrepios ao apreci-lo. O mural seguinte mostrava um pequeno bosque florido repleto de borboletas, caracterizando a primavera. A parede do vero havia sido coberta por diversos tipos de vegetao exuberante, e pequenos animais espiavam por entre as folhas como se fossem intrusos. O mural do outono era o mais bonito, com rvores pintadas em tons de amarelo, verde e vermelho numa alegre exploso de cores.
Ginny notou que Bret estava olhando para o teto, que havia sido dividido em quatro tringulos exatamente iguais, um deles pintado com um cinza forte, e os outros trs em tons diferentes de azul. Nuvens, pssaros e borboletas pareciam brigar por um pequeno espao no firmamento congestionado.
Em seguida ele olhou para o cho... e gemeu ao ver o castor que o encarava com expresso ameaadora, escondido entre os vrios troncos de rvore pintados no piso de madeira. Outras criaturas pareciam correr por todo o espao da sala.
Finalmente ele conseguiu vencer a surpresa e perguntou:
	Voc fez isso?
	Infelizmente no. Foi Diana Sheldon, a professora de arte da escola local, c eu s ajudei nas horas vagas, quando papai dormia.  O trabalho havia sido uma espcie de terapia para aqueles dias de angstia e desespero, ajudando-a a esquecer a doena do pai e o marido que acabara de deixar.
	Hugh no fez nenhuma objeo?
	Papai at pagou pela pintura.
	Esta Diana Sheldon  um pouco... excntrica, no?
	Ela  maluca.
Bret riu.

	 verdade!  Ginny insistiu, apanhando algumas peas de roupa e aproximando-sc do armrio, cujas portas imitavam duas rvores mortas.  Ela  professora, e acho que os cinco anos que passou no meio de adolescentes turbulentos acabou afetando seu crebro.
	No diga!  ele exclamou, imitando-a e ajeitando os cabides dentro do armrio.
Ginny lembrou-se de uma poca em que ele sempre se afastava para deix-la usar os cabides primeiro, ajudando-a a pendurar as roupas elegantes no armrio do requintado apartamento em Memphis.
Ainda estava entregue s lembranas, quando ele comentou:
	Isso foi muito inteligente, Ginny.
	Isso o qu?  surpreendeu-se.
	No me prevenir sobre essa floresta horrorosa dentro da sala.
	Pensei que papai houvesse avisado. Vocs dois pareciam to... ntimos. E no h nada de horroroso nas pinturas. Diana sempre teve orgulho delas, e eu escrevi um artigo sobre este trabalho no Herald. Ela sempre trazia os alunos aqui, para apreciarem um verdadeiro trabalho de arte, e como as aulas comearam h duas semanas, voc dever ter visitas em breve.
	Que maravilha! No posso esquecer de fazer biscoitos...
Ela o encarou e riu. Os conflitos pareciam temporariamente suspensos, e Bret brindou-a com uni sorriso franco.
Uma sbita onda de calor fluiu entre ambos, levando-a de volta a um tempo cm que tudo parecia promissor como o painel ua primavera, do outro lado da sala. Mas atrs daquele mural existia uma parede fria e sem vida, c atrs de suas lembranas. um oceano de dor.
Contendo as emoes, ela perguntou: Trouxe o carro para a garagem?
	Trouxe. Ginny...
Ei, vocs dois ainda no terminaram? Estou faminto!
gritou Hugh do alto da escada.
Aliviada com a interrupo, Ginny correu para a porta.
	Pensei que estivesse descansando, papai.
	J descansei.
	Por... trinta minutos?	
	Qual  o problema, filha? Est acontecendo alguma coisa;que no quer que eu saiba?
	No,  que eu pensei que... Ah, esquea!  disse, sabendo que seria intil iniciar uma nova discusso. Nunca conseguia venc-lo! Disposta a aproveitar a excelente oportunidade, puxou o pai pelas mos e o fez entrar.  J que est melhor, por que, no ajuda Bret com a mudana? Enquanto isso, vou terminar o jantar.
Saiu e comeou a descer a escada apressada, mas escorregou no segundo degrau e sentiu que duas mos fortes a seguravam.
	Cuidado, Ginny. Por que a pressa?  disse Bret, sorrindo com ar sedutor.  Temos todo o tempo do mundo...
E era isso que ela temia. Teria de encontr-lo todos os dL no jornal, acatar suas ordens, e ainda seria obrigada a encontr-L quando voltasse para casa. S no admitia que seria incapaz d suportar, porque seu orgulho era maior que tudo.
Respirando fundo, ergueu a cabea, endireitou as costas e ter minou de descer a escada em silencio, lutando para conter lgrimas de desespero.

CAPITULO IV

Voc no pode deixar de divulgar o cardpio da escola!  Ginny exclamou furiosa.
Bret inclinou-se e respondeu:
	 claro que posso.
	Mas isso tem sido publicado todas as semanas, durante todo o ano escolar...  insistiu, irritada com a quantidade de mudanas que ele havia implantado em duas semanas.  O cardpio ocupa um espao mnimo no jornal, e  um servio de utilidade pblica.
	Mas agora j no  necessrio. A escola manda os cardpios para os pais mensalmente.
	E as crianas sempre os perdem antes de chegarem em casa.
	Isso no  problema nosso.
	 claro que no! Seu problema  destruir uma tradio to antiga quanto o jornal!
	Que j no tem nenhuma utilidade. E em vez de estar me enfrentando, voc devia estar pensando em alguma coisa para ocupar esse espao.
	Por exemplo?
	No sei... Que tal publicarmos o perfil dos alunos mais destacados da escola local? Sabia que um dos meninos tem boas chances de ser aceito em West Point? O nome dele ... Biggs.
	Jeffrey Biggs?  ela suipreendeu-se.  Mas isso  maravilhoso! Ele estudou com minha irm Carrie h alguns anos.
Como conseguiu esta informao?
No almoo do Rotary Club. O pai orgulhoso sentou-se ac meu lado, e falou sobre o filho durante todo o tempo.
 Entendo.
Esta era outra coisa que a incomodava. Esperava que Bret ficasse entediado com o ritmo lento da cidade e at mesmo con o Herald, mas ele parecia ter esquecido completamente a agitac de Memphis e o trabalho dinmico que fazia por l.
Ingressara em diversas organizaes cvicas, e nunca perdia uma reunio. Sabia que ele passava a maior parte das noites casa de Sam e Laura, e odiava-se por estar to atenta a cada ur de seus movimentos, especial-mente porque, em segredo, desejava ardentemente poder participar deles.
Ele havia levado a azalia para sua casa e Ginny a colocara sobre a penteadeira do quarto, o que era como ter uma parte de Bret sempre por perto. Podia mudar a planta de lugar, mas de que adiantaria? Bret continuaria ocupando o mesmo espao seus pensamentos.
Ele nunca mais tentara descobrir por que fora abandonado e, conhecendo a persistncia do ex-marido, Ginny sentira-se realmente aliviada ao perceber que ele havia abandonado o assunto.
Haviam conseguido estabelecer uma boa relao de trabalho, e ela estava contente por ter se livrado da responsabilidade de ser a editora... embora no admitisse a satisfao para ningum.
Bret a consultava sobre todas as decises, como agora, quando perguntara sobre o cardpio da escola, e ela raramente discordava. Mas desta vez ficara realmente aborrecida, pois o servio fazia parte das pginas do Herald havia anos.
At ento ele aceitara a maior parte de suas sugestes, inclusive aquela sobre convidar cidados de Webster para comentar questes mundias no editorial. Ginny escrevia uma coluna semanal e podia us-la para discutir o que quisesse, e tudo isso seria suficiente para deix-la feliz, no fosse a sensao de desconforto que a presena dele provocava.
Sabia quando Bret estava no prdio, mesmo que no o viss e algumas vezes chegara a sentir vontade de toc-lo, mas refrea o impulso e dissera a si mesma que acabaria se acostumanc com a proximidade. Afinal, se no o amava, por que tinha de incomodar?
Retomando a discusso sobre o jornal, cia disse:
  bom saber que Jeff pode ser aceito em West Point e gostei da ideia de incentivar o bom desempenho dos estudantes, mas...
,	Fico feliz por concordar, porque a deciso j foi tomada.
	Ento por que me chamou aqui?
	Para ver voc explodir. Estou comeando a perceber que aosto muito quando voc discorda de mim, porque isso mostra que est desenvolvendo uma personalidade profissional.
	Que bom...
	Voc sempre foi firme com relao a assuntos pessoais, no ?
Ginny no respondeu e ele prosseguiu:
	Estou pensando em fazer uma srie de artigos sobre educao, e soube que o colgio de Webster vai realizar uma reunio esta noite. Ns vamos at l.
	Para qu?
	Para entrevistar os pais, os alunos e os professores. Por qu? Est com medo de ficar sozinha comigo?
	No seja ridculo!
	Ento est combinado. Pego voc s seis e meia. Se tudo correr bem, tentaremos convencer o diretor a autoriz-la a passar alguns dias assistindo s aulas.

	Ficou maluco? J tive meus dias naquele colgio!
Bret riu:
	Calma, Ginny, eu estava brincando.
	Eu j imaginava...
Desta vez ele riu alto, e Ginny sentiu uma onda de calor envolv-la. Ele sempre gostara de provoc-la e observar sua reao, e quando ainda eram casados, ela conseguia controlar-se e at nr das provocaes. Tinha medo de que Bret perdesse o interesse pela garota boba e ingnua que era, e tentava fingir uma sofisticao que no possua.
No entanto, agora as coisas eram diferentes. Ele ainda a provocava e irritava, mas ela o enfrentava e expressava suas opinies sem medo, e Bret parecia respeit-la por isso.
Enquanto pensava nessas mudanas, Ginny olhou para a pilha de caitas sobre a mesa e viu um envelope com o 
timbre do jornal de Memphis, onde Bret trabalhara durante anos. Havia uma srie de recortes de jornal dentro dele e um bilhete preso com um clipe. Virando a cabea, ela leu: Viu o que esta perdendo?
	Notcias de casa?  perguntou, escondendo o desconforto por saber que ele provavelmente partiria em breve.
	Eu estou em casa. E esse bilhete  de Frank Brevard.
	Seu editor? Aposto que ele quer voc de volta.
	Meu ex-editor. E no momento estou mais interessado em saber o que voc quer.
	Quero fazer meu trabalho em paz, enquanto voc cuida do seu.
	 claro.
	J que nos entendemos...  e olhou para o envelope mais uma vez.
	No quer ler os artigos, Ginny? Vai ach-los muito interessantes. No quer? Bem, no diga que eu no ofereci.
Havia algo em seu tom de voz que a fez fit-lo com interesse. Sentia-se novamente como duas semanas atrs, quando ele prometera um relacionamento estritamente profissional dentro da re-dao, mas no dissera nada sobre os encontros fora do escritrio. Perturbada, saiu e foi para sua sala, onde fechou a porta e tentou concentrar-se no trabalho. Infelizmente foi impossvel, porque no conseguia esquecer que naquela noite sairiam juntos. No seria exatamente um encontro, mas isso no diminua a ansiedade que experimentava. 
Naquela noite, quando ficou pronta quinze minutos antes do horrio combinado, Ginny decidiu que precisava distrair-se e foi procurar o pai. Encontrou um bilhete dele sobre a mesa da cozinha e soube que Hugh havia ido jogar cartas com alguns amigos. Continuava escondendo-se e fugindo, e ela tentava imaginar o motivo, j que ajustara-se bem s mudanas que ele havia imposto.
Ansiosa, foi at a janela e olhou para a escada que levava ao apartamento sobre a garagem. Levou os dedos  boca e comeou a roer as unhas, mas em seguida decidiu passar o tempo conversando com a irm. Por isso, pegou o telefone e discou o nmero de Carne.
Com prazer, ouviu a irm falar sobre os novos amigos e professores, e disse a ela o quanto sentia sua falta.
	Ouvi dizer que Bret alugou o apartamento sobre a garagem Carrie comentou.
	E acha que a ideia foi minha? Pelo visto, andou conversando com papai...
	Ele no disse nada? Telefonei para casa na semana passada.
	E como poderia dizer alguma coisa? Papai est fugindo de mim h duas semanas.
	Talvez seja culpa...
	Duvido.
	, talvez no  riu Carne.  Est sendo muito difcil viver perto de Bret?
	Muito  admitiu.
	Por que acha que ele aceitou o emprego no Herald.
	No sei... Parece que queria levar uma vida mais tranquila.
	E voc acredita nisso?
	No sei. As vezes acho que o entendo, mas em seguida ele faz alguma coisa surpreendente e eu j no sei o que pensar.
Isso prova que eu no o conhecia quando nos casamos.
	E por que no aproveita para conhec-lo agora?
A pergunta a deixou confusa. Sabia que tinha medo de ferir-se novamente, mas antes que pudesse confessar seus temores, Bret bateu na porta da cozinha. Ginny despediu-se, desligou e saiu, incapaz de ignorar a confuso que a pergunta da irm havia criado em seus sentimentos. 
A escola estava iluminada e Ginny parou na escada para contemplar o prdio slido e antigo. Bret parou a seu lado e colocou a mo em suas costas.
	Algum problema?  perguntou.
	No, nenhum. Eu s estava pensando... Sabe que fui matriculada neste colgio quando tinha apenas doze anos de idade? e arrependeu-se de ter falado, pois odiava pensar nesse episdio. Sabia que o erro havia sido da direo da e/scola, mas mesmo assim a lembrana a incomodava.
	Est brincando! Por qu?
Havia despertado a curiosidade dele e agora era tarde demais para tentar mudar de assunto. Por isso, respondeu:
	Eu fui para o jardim da infncia antes de completar cinco anos, e quando cheguei ao ginsio meus professores decidiram que eu estava pronta para ir para o segundo grau.
	E estava? 
Ginny balanou a cabea, surpreendendo-se com a culpa que ainda experimentava.
	No, mas devia estar. As aulas eram muito fceis para mim, especialmente as de matemtica, mas minha me havia morrido e... acho que no consegui lidar com todas as mudanas.
	Voc era s uma criana! Que diabos esperavam que fizesse?
	Eu sempre tive notas muito altas, e acho que os professores pensaram que eu no estava sendo desafiada como devia. Feliz mente descobriram que haviam cometido um engano e me mandaram de volta para o ginsio.
	Que absurdo!
Arrependida e tentando encerrar o assunto, Ginny subiu vrios degraus antes de perceber que Bret no estava a seu lado. Parou, olhou para trs e viu que ele continuava l embaixo, observando-a com um sorriso.
	O que foi? Meu vestido est amassado?
Ele subiu devagar e, quando alcanou-a, tocou-a no queixo e a fez encar-lo. Havia algo em seus olhos que ela no conseguia identificar, algo que lembrava a ternura que vira tantas vezes e que tambm podia ser... compaixo. Apesar de todo o esforo, Ginny comeou a tremer.
	No h nada errado com seu vestido. S parei porque finalmente entendi algo sobre voc.
	O qu?
	Todos sempre esperaram demais da pequena Ginny  e segurou-a pelo brao.  Venha, vamos entrar. Podemos terminar esta conversa mais tarde.  Olhando para o grupo que seguia um pouco  frente, ele riu e comentou:  Se ainda fssemos casados, aqueles poderiam ser ns dois daqui a vinte anos.
	Ns? Por qu?
	Porque daqui a vinte anos j teramos o pequeno Bret e a pequena Ginny, e eles estariam exatamcnte nesta escola.
A ltima discusso que haviam tido crianas terminara com a concluso de que deviam adiar o projeto por alguns anos. Naquela poca Ginny tinha apenas vinte e dois anos, acabara de sair da faculdade e julgara a deciso bastante sensata, mas sentia uma pontada de arrependimento por no ter tido um filho, mesmo sabendo que isso teria tornado o processo de divrcio mais difcil. Bret continuou:
	Ns viramos aqui para falar com os professores do pequeno Bret, certos de que ele estava indo bem nos estudos, e acabaramos descobrindo que ele estava mais interessando em garotas e futebol do que em matemtica e histria.
	Por que diz isso?
	Porque ele seria como o pai.
	Que horror...
	Por outro lado, a pequena Ginny seria uma aluna exemplar e linda, e eu teria de passar as noites sentado na porta de casa com um revlver, defendendo sua honra.
	E quem disse que ela ia querer que algum defendesse sua honra?
	Ela no teria escolha.
Chegaram ao auditrio, onde os pais eram recebidos e encaminhados para a sala dos filhos, e prepararam os blocos onde fariam anotaes para os artigos. Decidiram separar-se e entrevistar os pais e professores, e de repente Ginny descobriu-se seguindo as sugestes de Bret com entusiasmo. Sabia que as crianas cujos pais participavam da vida escolar tinham melhor rendimento, e o artigo poderia encorajar outros pais e envolverem-se com as atividades da escola. Depois de meia hora encontrou Bret no saguo e aproximou-se para cumpriment-lo pela ideia.
Ele sorriu ao v-la e acenou, e ento um homem aproximou-se, bateu em suas costas e disse:
	Ol, Calhoun! Encontrei seu irmo h poucas horas. Parabns pelo...  era o pai de Jeffrey Biggs, o menino que estava prestes a ser aceito em West Point.
Bret segurou-o pelo brao e os dois desapareceram no meio da multido, deixando-a sozinha e confusa. O que significava aquela estranha reao?
Depois de alguns minutos encontraram-se e Ginny perguntou o que havia acontecido, mas Bret limitou-se a dizer:
	Prefiro discutir isso quando estivermos sozinhos. Voc pode fazer uma cena...
	Uma cena?
Est vendo? J comeou. Por que no vai entrevistar aquele grupo de pais?  sugeriu.  Vou ver se consigo encontrar o diretor.
Sem dizer mais nada, afastou-se e Ginny retornou ao trabalho, disposta a descobrir tudo assim que tivesse uma chance.
Uma hora mais tarde a multido comeou a dispersar-se, e os dois encontraram-se perto da porta principal. Deixaram o edifcio e, no caminho de casa, Ginny foi incapaz de conter a curiosidade.
	Afinal, o que significa tudo isso?  perguntou com ar de acusao.
	Hoje recebi a notcia de que ganhei o Prmio McKellar.
Atnita, virou-se para encar-lo. O McKellar era o prmio anual para os melhores trabalhos na rea de jornalismo, e o comit era composto por um grupo de editores e escritores do sudeste. No sul, o prmio tinha quase o mesmo prestgio do Pulitzer.
	Est brincando!
	No.
Orgulhosa, foi incapaz de conter o entusiasmo:
	Isso  maravilhoso, Bret! Que artigo eles julgaram?
Ele no respondeu de imediato e, invadida por um estranho pressentimento, ela insistiu:
	Bret?
	No foi exatamente um artigo. Foi uma srie que o jornal publicou logo depois de sua partida.
	Srie? No sabia que estava trabalhando em algo parecido.
	A ideia foi de Frank. Na verdade, ele mesmo telefonou para me avisar sobre o prmio.
	Aqueles recortes no envelope... Eram os artigos publicados?
 perguntou, mortalmente arrependida por ter se recusado a lei as matrias.
	Isso mesmo.
	Pare de fazer mistrio. Bret, ou vou arrancar essa histria de voc com um alicate!
Com um suspiro, ele comeou a falar:
	Logo depois do nosso casamento, Frank teve a ideia de divulgar a histria do crime organizado no sul. Era uma matria extensa, que s poderia ser publicada em srie. Eu tinha alguns contatos, pessoas que sabiam que eu no mencionaria seus nomes se decidissem me contar alguma coisa.
	Ento... todas aquelas noites que passou fora de casa...
Haviam chegado e Bret estacionou o carro na porta da garagem.
Desligou o motor, virou-se para ela e encostou-se na porta.
	Exatamente. As pessoas com quem eu precisava conversar possuam hbitos pouco regulares, e eu tive de me adaptar ao horrio de trabalho deles. Se  que extorso, jogo ilegal e trfico
de drogas pode ser chamado de trabalho...
	Por que no me contou?
	Porque no queria expor voc a riscos desnecessrios.
	Mas devia ter me contado! Eu era sua esposa!
	Pois no parecia.
	No se atreva a me culpar pelo que aconteceu. Eu tinha o direito de saber que meu marido estava arriscando a vida e... Foi por causa desta matria que acabou ferido, no foi?
	Exatamente.
Ginny colocou o cotovelo na janela e apoiou a testa com uma das mos.
	Eu tinha o direito de saber  repetiu.
	E eu tinha o direito de proteger voc do perigo de saber mais que o necessrio. Alis, tinha obrigao de proteg-la!
S havia uma explicao para a atitude dele, e Ginny sabia qual era. Bret a considerara imatura demais para receber informaes srias e importantes, e por isso escondera a verdade de sua prpria esposa.
	Por que no me contou tudo quando veio atrs de mim, no inverno passado?
	Porque voc queria ficar com Hugh, e eu sabia que ele precisava da sua presena naquele momento. Alm do mais, o perigo ainda existia... e eu estava furioso com a sua atitude covarde.
	A verdade  uma s, Bret. Voc preferiu me perder a correr o risco de perder uma boa histria.
	Se isso  verdade, que diabos estou fazendo aqui?
	S Deus sabe!  respondeu irritada, vendo que ele saa do carro e fazendo o mesmo.  Vai fugir?
	No. Vou deixar que pense em tudo isso por algum tempo.
Boa noite. Eu a levaria at a porta, mas uma mulher independente como voc ficaria at ofendida com um gesto de proteo  e virou-se. Havia dado alguns passos, quando parou e informou:  A propsito, a entrega do prmio ser na prxima quinta-feira. Quer ir comigo? No? Tudo bem, acho que posso encontrar outra pessoa  e acenou, antes de desaparecer na escada que levava ao apartamento.
Ginny ficou onde estava, tentando descobrir por que tinha a impresso de que ela era a nica a ter errado naquela histria.

CAPITULO V

Bret decidira levar Dris ao jantar de entrega do McKellar.
Sentada em sua sala no prdio deserto do Herald, Ginny ainda pensava na confuso que instalara-se em sua mente desde a noite da reunio no colgio.
Durante uma semana tentara imaginar quem acompanharia Bret ao jantar, e sentira-se aliviada ao descobrir que Dris havia sido a escolhida.
Isso mostrava o quanto ele havia mudado. Na poca em que atuava como reprter em Memphis, nunca dera ateno aos colegas de trabalho e suas necessidades, sempre preocupado com sua carreira e a prxima histria.
Agora parecia disposto a conhecer os empregados e acabara descobrindo que Dris era uma autoridade local no prmio, desde o ano em que Hugh participara do comit de indicaes. Tambm descobrira que Dris adorava viajar, mas que seu temor de dirigir na estrada a impedia de ir a algum lugar. Desde a morte do marido, vrios anos antes, ela no sara mais de Webster.
A mudana em seu comportamento a confundia e perturbava, pois at ento estivera convicta de que ele partiria em pouco tempo. Mas se planejava partir, por que trabalhava tanto para melhorar o jornal?
A pergunta de Carrie continuava ecoando em seus ouvidos. Por que no aproveitava para conhec-lo agora? E por que no aceitara o convite para acompanh-lo  entrega do prmio? Passara a tarde anterior andando pela casa. imaginando a felicidade de Bret ao fazer o discurso de agradecimento e seu orgulho por estar presente.
Ento, por que se recusara a acompanh-lo? A nica resposta honesta era... por medo. Temia que ele voltasse a ter um grande significado cm sua vida.
Cansada, levantou-se e foi verificar se todas as portas do prdio haviam sido trancadas para o final de semana.
Brct e Dris haviam partido na manh anterior e deviam voltar a qualquer momento, mas era bvio que no iriam para o escritrio. A feira municipal comeara naquela tarde, e todos haviam sado mais cedo para ir at l. Dris inscrevera um trabalho no campeonato de bordados, c certamente iria at l para verificar se havia sido a vencedora. No conhecia os planos de Bret, mas tinha certeza de que uma feira como aquela no atrairia sua ateno, especialmente depois de ter recebido o prmio McKellar.
Os melhores editores do pas estariam presentes naquele jantar, e Bret devia ter recebido diversas propostas de emprego, todas muito tentadoras.
Depois da partida dele, no dia anterior, ela havia ido at seu escritrio e apanhara o envelope com os recortes que Frank Bre-vard enviara. Levara-o para sua sala e, abandonando o texto que escrevia sobre Jeffrey Biggs, dedicara-se a ler os artigos com ateno.
Eram timos, sem dvida os melhores que ele j havia escrito, mas quando pensava nas situaes em que Bret se envolvera para obter as informaes, Ginny sentia o sangue congelar nas veias. Se soubesse o que estava acontecendo naquela poca, teria tido ataques histricos... e por isso ele escondera a verdade.
Depois de ler aquelas matrias, tinha certeza de que Bret receberia diversas propostas de emprego e acabaria aceitando uma delas. Se isso acontecesse, seria obrigada a reassumir o posto de editora do Herakl... e voltar a viver a vida montona e sem encantos de antes.
Por isso tinha de manter-se afastada dele. Conseguira sobreviver  dor do casamento fracassado, mas sabia que seria incapaz de enfrentar tudo novamente. Por outro lado... Bret jamais dissera que a queria de volta, e no sabia como reagiria se ele manifestasse o desejo de aproximar-se novamente.
Irritada com os pensamentos confusos, pegou a bolsa, saiu e trancou a porta. Ao chegar cm casa, notou que o carro de Bret no estava no lugar de costume c entrou, sentindo-se um pouco frustrada. Hugh a recebeu com alegria, danando em torno dela como uma criana eufrica.
	Papai, o que  isso?
	V trocar de roupa, meu bem. Vai haver um grande baile na feira municipal, e eu quero levar minha garota favorita.
Feliz com a oportunidade de passar algum tempo ao lado do pai, ela riu e foi mudar de roupa. Hugh parecia melhor a cada dia, e passava horas trancado no estdio, dedicando-se ao livro, e por isso quase no haviam se encontrado nas ltimas semanas.
Ginny decidiu vestir a cala jeans, uma camisa e um par de tnis e, sabendo que a temperatura cairia mais tarde, amarrou as mangas de um suter em torno do pescoo. Escovou os cabelos, passou um batom discreto e desceu.
Quando chegaram, o espao reservado  feira j estava cheio e movimentado. As filas para os brinquedos lembravam imensas serpentes, cujas cabeas escondiam-se nas bilheterias, e Hugh comentou, olhando para as pessoas que esperavam com pacincia:
	Felizmente j passei da fase de levar vocs nesses monstrengos.
	Papai, voc nunca fez isso. Mame sempre ia comigo, e era eu quem levava Carrie.
	Bem, agora  tarde demais para comear  riu, segurando-a pelo brao e levando-a para perto das barracas de comida e jogos.
A feira podia parecer uma grande bobagem para algumas pessoas, mas para Ginny era um evento importante da comunidade local e uma das razes pelas quais adorava viver numa cidade pequena. Era maravilhoso andar de brao dado com o pai, cumprimentando pessoas que conhecia desde que nascera.
Hugh encontrou um grupo de amigos e parou para conversar e, desinteressada nas comparaes entre os diversos tipos de rao animal, ela dirigiu-se  rea onde aconteciam os campeonatos de trabalhos manuais. Feliz, descobriu que o bordado de Dris merecera o primeiro prmio, c torceu para que a amiga chegasse logo para recebe-lo.
Caminhou mais um pouco e parou para divertir-se com outros jogos e desafios. Sua dentista e o marido tomavam conta de uma das barracas, e ela acenou e parou para ver a brincadeira que chamavam de desafio molhado. O jogo consistia de uma grande piscina de lona cheio de gua e uma prancha de madeira. Um
voluntrio sentava-se na prancha e a multido pagava pela chance de derrub-lo, atirando bolas de beisebol no crculo de metal sob a prancha. Quando algum conseguia acertar o alvo, a prancha descia e o voluntrio era jogado na gua.
Sam Calhoun estava diante do tanque com uma expresso satisfeita no rosto. O delegado, Farley Hunkle, acabara de sair do tanque e tentava afastar os cabelos molhados dos olhos.
	No devia ter multado meu cairo, Farley  ria Sam.
	Voc mereceu  respondeu o delegado, antes de entrar na cabine de madeira que servia como vestirio.
Ginny ouviu algum cham-la pelo nome, virou-se e viu Laura Calhoun sentada num banco, apoiando o corpo sobre uma das mos e tentando acomodar a enorme barriga de maneira mais confortvel.
	Ol, Laura  cumprimentou com alegria, aproximando-se da ex-cunhada.  Como vai indo?
	Como se estivesse gerando um elefante  riu.
Ginny tambm riu, apesar da pontada de inveja.
	Para quando  o beb?  perguntou.
	Ainda faltam quatro semanas.
	Engordou muito?

	Minha me disse que eu sou a maior grvida que j viu em toda a vida. Como ela teve seis filhos, deve saber do que est falando.
	Acho que sim. E como vai o tornozelo?
	O... tornozelo?
	Eu soube que teve um pequeno acidente h algumas semanas.
Confusa, Laura balanou a cabea e explicou:
	Eu torci o tornozelo tentando tirar aqueles ces estpidos do Sam de perto da minhas roseiras, mas a dor passou no mesmo dia,
	Ah... Pensei que houvesse sido mais grave.
Apesar do sorriso, estava furiosa. Seu pai a enganara, e seria capaz de apostar o salrio de seis meses como Bret tambm estava metido nisso. Afinal, ele saberia se a cunhada estivesse realmente machucada como Hugh comentara e. no entanto, no se importara em dizer a verdade. Eles que esperassem ate que pudesse peg-los!
	O beb est... Oh oh!
Alarmada, Ginny inclinou-sc c perguntou:
	O que foi? Est sentindo dores?
	No, mas olhe s aquilo  e Laura apontou para o tanque.
Ginny virou-se e viu Bret sentado sobre a prancha. Vestia cala jeans e uma camiseta velha que costumava usar para lavar o Jeep, o que indicava que havia passado em casa ao chegar de viagem.
Bret posicionou-se, olhou para o irmo e desafiou:
	Voc s acertou porque teve sorte.
	Isso  o que vamos ver  respondeu Sam, apanhando uma das bolas no cesto de metal.
Depois de alguns instantes de concentrao, fez pontaria e arremessou, mas errou.
O responsvel pela barraca comeou a gritar, tentando atrair novos fregueses.
	Venham testar sua pontaria com o novo editor do Herald.
Ele errou seu nome? Publicou uma foto ruim? Contou a todo mundo que voc xingou sua sogra? Agora  a hora da vingana!
Laura e Ginny riram, e a esposa de Sam comentou: - Sabe de uma coisa, minha amiga? No h nada realmente errado com os homens da famlia Calhoun. Eles so teimosos, cabeas duras, e acham que sabem mais que todo mundo, s isso.
	Eu j percebi  Ginny respondeu.  E tambm costumam esconder informaes importantes.
	 verdade. Sempre acreditei que eles eram reencarnaes dos homens das cavernas. Olham para uma mulher, decidem que a querem e arrastam a coitada pelos cabelos at a igreja mais prxima.
	Concordo com voc.
	Uma mulher esperta no perderia a chance de mostrar a um deles o quanto esto errados.
	Todos os meus professores diziam que eu era muito esperta.
	E eu acho que eles tinham razo. Quantas chances como esta uma mulher pode ter durante a vida?
	Poucas. Na verdade, esta pode ser a nica. Como no h ningum na fila depois de Sam, acho que vou aproveitar.
Sem dizer mais nada, Ginny levantou-se e ajudou Laura a fazer o mesmo. A esposa de Sam parou ao lado do marido e, com expresso de sofrimento, murmurou:
	Estou to cansada! Podemos ir para casa?
Sam jogou a bola dentro do cesto de metal e virou-se para a esposa com ar preocupado.
	O que foi? Est sentindo dores? Eu sabia que no devamos ter vindo. Ol, Ginny  cumprimentou sem encar-la.
Ela nem se preocupou em responder, pois sabia que ele no ouviria.
Quando Sam segurou seu brao e comeou a caminhar, Laura virou-se e disse:
	Boa sorte, amiga. Eu adoraria ficar para ver, mas parece que estou sendo arrastada pelos cabelos mais uma vez.
Ginny acenou, sorriu e abriu a bolsa para apanhar o dinheiro. Com uma nota de cinco dlares na mo, aproximou-se da bilheteria e disse:
	Isso me d direito a cinco tentativas, mas tenho outras iguais aqui dentro para tentar quantas vezes forem necessrias.
Soltou as mangas do suter do pescoo e entregou-o a Sally junto com a bolsa, pedindo que os guardasse sob o balco. Em seguida virou-se e encarou Bret com um sorriso aberto c divertido.
Ele balanou a cabea lentamente:
	No, Ginny. Voc no est realmente pensando nisso...
Ela inclinou-se sobre o cesto de meta] e apanhou a primeira bola:
	Estou, sim  respondeu com um brilho de falsa inocncia nos olhos azuis.  A propsito, como foi o jantar de entrega do prmio?
	Muito bom  e segurou as bordas da prancha com fora.
 _ E isso no  jeito de tratar o vencedor do McKellar.
	Talvez no, mas no consigo resistir quando vejo um pato sentado numa prancha.
	No est pensando em tentar me derrubar, no ?
	Oh, no, eu no vou tentar.
	Ah...
	Eu vou derrubar!
	Nunca pensei que fosse to cruel.
	Dizem que aprendemos coisas novas todos os dias.
Ele riu, mas o sorriso desapareceu de seus lbios quando Ginny preparou-se para o arremesso.
	Ginny? Acabei de lembrar uma coisa.
	O que ?
	Voc jogou no time de beisebol do meu irmo, no foi?
	Ento ainda se lembra!
	Se importa se eu perguntar em que posio?
	De forma nenhuma  e estendeu o brao, tentando calcular a distncia entre ela e o disco metlico.  Eu era arremessadora  e inclinou o corpo para trs, erguendo o joelho esquerdo e fazendo a primeira tentativa. Errou por alguns milmetros.
	Precisa de culos?  Bret provocou.
Ginny no respondeu. Com a elegncia de uma duquesa, escolheu outra bola, preparou-se como na primeira vez e arremessou novamente. Vrias luzes se acenderam, as sirenes dispararam... e Bret caiu no tanque.
A multido explodiu em aplausos e ela virou-se para agradecer, aceitando a admirao com uma graciosa inclinao do corpo. Ouviu o barulho de gua e virou-se depressa, tentando encontrar Bret. Em vez de estar perto da borda oposta do tanque, que o levaria para perto dos vestirios, ele vinha lentamente em sua direo.
	Nem pense nisso, Bret!
	Acho que esqueceram de avisar, mas o ganhador tem de beijar o perdedor  e saiu do tanque, aproximando-se com ar ameaador.
	Sam no beijou o delegado!
	Sam  meu irmo e eu o adoro, mas tambm no faria questo de beij-lo.
	Pode esquecer! No vou Beijar ningum!
	Ento vamos ter de pensar em outra recompensa. Que tal passar o resto da noite comigo, aqui mesmo na feira?
	Voc est jogando sujo.
	Est com medo?
	E claro que no!
	Ento vai passar a noite comigo?
	Tenho outra opo?  respondeu com tom grosseiro, tentando faz-lo desistir.
Mas Bret no parecia aborrecido.
	Espere aqui. Eu vou trocar de roupa e volto em um minuto.
Ginny notou que vrias mulheres o observavam enquanto se afastava, e depois a fitavam com expresso de inveja. Decidiu aproveitar o tempo de espera para reforar suas defesas e foi buscar a bolsa e o suter, certa de que teria ao menos quinze minutos.
Mas ele retornou em dez, vestindo roupas secas e carregando uma sacola plstica com as peas molhadas. Como se soubesse que tipo de dvida a incomodava, pegou-a pelo brao e levou-a para a rea dos brinquedos.
	Aquelas filas esto enormes  Ginny comentou, numa tentativa desesperada de desencoraj-lo.
	No se preocupe  e tirou um mao de ingressos do bolso.
 Eu dei dinheiro a Jimmy Blaines, o filho da nossa vizinha, e ele ficou na fila enquanto eu estava no tanque.
	Voc pensa em tudo, no ?
	Eu tento. Venha, vamos deixar sua bolsa e minhas roupas molhadas no carro.
	Minha bolsa?
	No pode subir na roda gigante carregando essa coisa. Se ela cair daquela altura, pode matar algum!
	Que exagero!
Sabendo que no seria capaz de convenc-lo, Ginny acompanhou-o at o carro e fez como ele queria. Minutos depois voltavam pelo mesmo caminho, e Bret apoiou um brao sobre os ombros dela com ar protetor. Ginny sabia que devia afastar-sc, mas sentia-se to segura e protegida, que fingiu no ter notado o gesto de intimidade.
Bret levou-a para uma fila onde dzias de crianas esperavam a vez de brincar. Naquele brinquedo, as pessoas sentavam-se em pequenas jaulas, duas a duas, e eram seguras por uma barra de metal que ficava atravessada diante de seus peitos. A medida em que a velocidade aumentava, a roda ia levantando at assumir uma posio vertical, como se fosse realmente decolar.
	Est perdendo a coragem?  Bret perguntou, notando que ela olhava para o brinquedo com olhos bem abertos.
	Voc adoraria, mas no estou. J percebeu que somos os nicos adultos nesta fila?
	E da? Isso  desculpa para fugir. Voc est com medo, Ginny McCoy!
	No estou!  exclamou, mesmo sabendo que ele a provocava para depois divertir-se com sua reao.
Enquanto esperavam, Ginny surpreendeu-se ao descobrir subitamente que estava feliz. No podia pensar num lugar melhor para estar com Bret. Havia bastante gente em volta, muitas pessoas conhecidas, e poderia passar a noite toda divertindo-se ao lado dele, sem ser ameaada pelas lembranas e pelos sentimentos. Quando quisesse ir embora, s teria de encontrar seu pai e partir. Por que preocupar-se?
Estava comeando a esfriar e ela decidiu vestir o suter. Ajustou as mangas e levantou os braos para ajeitar os cabelos, mas Bret foi mais rpido. Com as mos suspensas no ar, encarou-o e viu que ele sorria com expresso doce e terna, demonstrando que o gesto havia sido inocente.
De repente as mos deslizaram de seus cabelos e alcanaram a nuca, provocando arrepios que imitavam pequenas correntes eltricas. Assustada com a prpria reao, ela o censurou:
	Bret!
	Fique calma, meu bem. O que acha que eu posso fazer num lugar to cheio?
Podia derrubar suas defesas com um simples toque. Mas Ginny no teve tempo de dizer mais nada, porque a roda havia parado e a fila caminhava rapidamente.
Sentiu vontade de fugir, mas ele segurou seu brao e guiou-a para uma das jaulas, ajustando a barra de metal diante deles. Um rapaz veio verificar a trava de segurana e segundos depois o brinquedo entrou em movimento.
	No vai ficar enjoada, vai?
Disposta a entrar no esprito da brincadeira, ela fitou-o com malcia e respondeu:
	 claro que no! Ns tnhamos um colcho de gua, lembra-se?
Bret riu alto e a roda passou a girar mais depressa. A velocidade aumentou de maneira assustadora, jogando-a contra ele e man-tendo-os grudados, embora ela fizesse um grande esforo para tentar afastar-se.
Apesar dos gritos e do rudo do motor, ouviu Bret sussurrar em seu ouvido:
	Desista, Ginny. Vamos ficar grudados at esta coisa parar.
Aproveite enquanto pode.
Apesar da fora centrfuga, ele conseguiu levantar o brao e pous-lo sobre seus ombros, dizendo que s queria apoiar sua cabea.
Quando a roda atingiu a posio vertical, Ginny abriu os olhos e viu o cu e a terra misturando-se numa massa colorida e confusa, e decidiu que seria melhor mante-los fechados. De repente sentiu
que ele a tocava no queixo e a fazia erguer a cabea... e experimentou novamente o sabor daqueles lbios.
A princpio ficou chocada demais para reagir, e depois no teve foras para afastar-se. As sensaes que percorriam seu corpo pareciam duplicar a velocidade da roda, provocando um emaranhado de cores e luzes que a atordoavam.
De repente a roda comeou a descer e perdeu velocidade lentamente, mas Bret no deixou de beij-la. Roubara seu flego e sua capacidade de raciocnio, e no mostrava a menor disposio de devolv-los. Ainda a beijava quando o rapaz veio soltar a barra de proteo mas, ao ouvir o barulho metlico, finalmente soltou-a e Ginny piscou como se houvesse acabado de sair de uma caverna escura.
O rapaz sorria e fitava Bret com olhos cheios de admirao.
	Puxa!  a primeira vez que vejo um beijo desses com a roda em movimento!
	Sorte de principiante  ele respondeu, descendo da jaula e ajudando Ginny a fazer o mesmo.
Estava to tonta, que teria cado se ele no a suportasse com o brao. J haviam descido os degraus da plataforma, quando seu crebro voltou a funcionar.
	Bret, no!  pediu, vendo que ele a guiava para outro brinquedo.  No quero mais subir nessas coisas.
	Mas eu j comprei os ingressos. Seria uma pena perd-los.
	Pode dar os bilhetes a uma criana.
Mas os protestos foram inteis, porque Bret arrastou-a para outra engenhoca que desafiava a lei da gravidade, uma espcie de polvo com assentos, cuja nica proposta parecia ser mant-la grudada nele a cada movimento.
Desta vez no tentou beij-la, e Ginny no conseguiu concluir se o que sentia era alvio ou decepo. Passar a noite com ele fora uma pssima ideia, pois agora estava mais confusa que nunca. E Bret no estava disposto a parar, pois mal desciam de um brinquedo e ele j a arrastava para outro. De qualquer fornia, diria a ele o que pensava sobre aquela noite assim que a maratona terminasse.
Mas ela sabia que no diria nada. porque estava se divertindo como nunca. Do alto da roda, Ginny viu o pai conversando com Jimmy Blaines e acenou, mas ele no a viu. Quando desceram, Hugh havia desaparecido.
Depois de usarem todos os ingressos, passaram aos jogos e, na primeira barraca, Bret ganhou um enorme urso panda de pelcia e obrigou-a a carreg-lo. Ginny vingou-se fazendo-o cuidar do boneco enquanto ia ao banheiro.
Finalmente pararam para um lanche, e estavam terminando de comer o delicioso cachorro-quente quando Hugh apareceu. Parecia satisfeito com alguma coisa, mas encarou a filha com ar de censura e disse:
	Esqueceu que ia ao baile comigo, mocinha?
	Oh, papai! Sinto muito!  exclamou. Como poderia lembrar-se de alguma coisa, se Bret estava to perto?  Est muito
cansado? Se quiser, podemos danar agora mesmo. Ou talvez ir para casa...
	No, querida, no se preocupe. A feira ser fechada em menos de uma hora, e acho que vou mesmo para casa. Bret pode lev-la mais tarde.'
Percebendo subitamente a realidade, Ginny compreendeu que havia feito exatamente o que prometera no fazer: aproximara-se de Bret.
	No, papai. Prefiro ir tambm. Voc pode precisar de mim e...
	Sabia que era bom demais para ser verdade  Bret interferiu, os olhos cinzentos cravados no rosto dela.
	O qu?
	Uma noite inteira de diverso, sem fugas, preocupaes ou acusaes mtuas.
	Mas eu no...
	Sua bolsa est no meu carro, lembra-se? Por que no volta comigo?
	Prefiro ir com meu pai. E quanto  bolsa, eu posso peg-la amanh  e virou-se para Hugh, olhando-o com evidente preocupao.  Podemos ir?
Pelo canto dos olhos, viu que o ex-marido e o pai trocavam alguns sinais rpidos, mas no conseguiu decifr-los. Antes que pudesse perguntar alguma coisa, Bret levantou-se e disse:
	Bem, se vo mesmo embora, nos vemos amanh. Boa noite, Ginny. Ate logo, Hugh.
Ela segurou o brao do pai e afastou-se depressa, sentindo que Bret a seguia com os olhos.
Quando tomaram o caminho de casa, Hugh quebrou o silncio:
	Eu estive pensando...
	O que disse?  Ginny perguntou, arrancada subitamente das lembranas que aqueciam seu corao. O passeio, o beijo...
Ah, especialmente o beijo!
	Eu disse que estive pensando... Acho que preciso ficar sozinho para escrever meu romance, porque aqui no consigo a concentrao adequada. Dave Mintnor falou sobre um amigo que tem uma cabana nas montanhas... E eu decidi alug-la.

CAPTULO VI
J vi fotos da legio estrangeira em lugares mais movimentados - disse Ginny, pisando com cuidado sobre as folhas que cobriam o cho e observando a cabana que o pai alugara para os prximos meses. Existiam outras na mesma regio, mas a temporada de vero havia terminado e poucas pessoas ficavam para os dias mais frios. Era um lugar lindo, mas ela no conseguia deixar de preocupar-se com a falta de recursos.  Essas rvores imensas parecem to sinistras!
Est exagerando  disse Bret, retirando uma das caixas de comida do carro e fechando a porta. Os trs j haviam levado mais coisas para dentro, provises suficientes para alimentar uma famlia de quatro pessoas durante um ms.  Agora sabe o que eu sinto morando naquela imitao horrorosa de floresta.
No  horrorosa!  ela protestou.   muito mais agradvel que isso aqui.
Acha que o lobo mau vai sair do mato para engolir seu pai? Devia estar mais preocupada com voc mesma. Temos uma longa viagem de volta a Webster, e estaremos sozinhos.
Normalmente teria respondido, mas agora estava preocupada com Hugh. Fora uma semana movimentada desde a feira municipal, durante a qual suplicara, ameaara e chorara em vo. Chegara at a telefonar para Carrie e pedir que fosse visit-los, o que acontecera no ltimo final de semana, mas cia tambm concordara com a ideia do pai. Ginny argumentara, dizendo que passava o dia todo fora e que ele tinha a casa s para si, mas Hugh afirmara que precisava ficar sozinho para terminar o livro.
Finalmente ela compreendera que escrever um romance  muito diferente de redigir artigos para um jornal e aceitara sua deciso.
A cabana tinha espao suficiente para uma pessoa, Hugh tinha comida para muitos meses e um amigo da famlia havia garantido que ele no congelaria durante os dias mais frios. Mesmo assim, a apreenso persistia.
Bret notou a ansiedade estampada em seu rosto e tentou confort-la:
	Ginny, seu pai  adulto, e voc no  responsvel por ele.
	Eu nunca disse que era!
Ginny subiu a escada que levava ao interior e ia abrir a porta, quando Hugh surgiu na soleira.
	Por que a pressa, querida?  ele perguntou, olhando para Bret que subia logo atrs.
	Quero organizar as coisas na cozinha antes de partir.
	No  necessrio.
	Eu fao questo, papai  e passou por ele com expresso carrancuda.
	Ento no demore  disse Hugh, olhando para o cu cinzento.  Acho que vai chover.
	E ns temos de pegar a estrada  Bret completou, seguindo-a at a cozinha.  Vou ajudar voc com isso.

	Enquanto vocs guardam os mantimentos, vou dar uma olhada no lago.
	Certo, papai  e dedicou-se  tarefa de retirar das caixas todas as mercadorias que escolhera no mercado de Webster.
Enquanto arrumava o leite c os ovos na prateleira do refrigerador, Ginny admitiu que Bret estava certo. Aquela quantidade de comida era um exagero e sua preocupao tambm era tola. Hugh no tossira uma nica vez nos ltimos dias, e parecia muito satisfeito com o perodo de solido. O que a incomodava era a ideia de ficar sozinha naquela casa enorme, com Bret to perto.
Ele estava ocupado arrumando as latas no armrio, e no notou que era observado com admirao. Antes que Ginny guardasse metade dos perecveis na geladeira, Bret j havia esvaziado uma caixa e comeava e lidar com a segunda. Era eficiente cm tudo. embora ultimamente trabalhasse com metade da velocidade que utilizava quando ainda eram casados.
Ginny estava cada mais surpresa com as mudanas. O homem com quem se casara jamais deixaria de fazer suas coisas para
ajudar algum, a menos que fosse um parente prximo ou uma pessoa que pudesse benefici-lo profissionalmente, mas agora j no parecia to preocupado com a profisso. Dris havia dito que ele recebera diversos telefonemas com propostas interessantes, mas no aceitara nenhuma delas. Por qu? Estaria mesmo disposto a permanecer em Webster?
De certa forma, Ginny preferia que ele partisse. Pensava nele com frequncia desde a noite da feira, e era como se a proximidade e o beijo houvessem derrubado a frgil barreira que construra para proteger os sentimentos.
Ele virou-se de repente e viu que ela o observava. Sorriu como se perguntasse em que estava pensando, e Ginny soube que o rubor de seu rosto explicava tudo.
Felizmente ele fingiu no perceber.
	No se preocupe, Ginny. Hugh vai ficar muito bem.
	Eu... acho que tem razo  e virou-se para terminar o trabalho.
Quando fechou a porta da geladeira, viu que Bret estava encostado no armrio com os braos cruzados sobre o peito e um brilho sonhador nos olhos cinzentos.
	Lembra quando trabalhvamos juntos na cozinha do nosso apartamento?  perguntou com voz profunda.
	Eram ocasies raras, porque voc nunca estava em casa.
	O que de certa forma era bom. Sempre que estvamos juntos naquela cozinha, tropevamos um no outro, pedamos desculpas... e acabvamos na cama.
	Bret! No quero que fale sobre essas coisas!
	Tem medo?
	Fico aborrecida.
Hugh entrou a tempo de ouvir a gargalhada de Bret. Tirou os sapatos, deixou-os ao lado da cadeira e depois limpou as mos no leno.
	Maldito barro  resmungou.
Ginny sabia que tinha o rosto vermelho, e sentiu-se grata por ele no comentar nada. Tentando afastar os pensamentos confusos, estendeu a mo e disse:
	Vou lavar o leno para voc.
	No, querida  disse ele, guardando-o no bolso rapidamente.  Eu posso fazer isso mais tarde.  melhor irem de uma vez, ou vo pegar chuva no caminho.
O momento que tanto temera havia chegado. No s sentiria a falta do pai, como ficaria absolutamente sozinha pela primeira vez em toda a vida. Sara de uma casa barulhenta e movimentada, onde vivia com mais duas pessoas, e fora para uma faculdade onde havia dividido um dormitrio com meia dzia de garotas alegres. Depois casara-se com um homem cuja presena parecia preencher todos os espaos do apartamento, mesmo quando ele no estava, e jamais tivera de enfrentar o silncio ou a solido.
Hugh estendeu a mo para Bret e disse:
	Tome conta da minha menina e do meu jornal, Bret. Sei que posso confiar em voc.
Ginny percebeu uma espcie de comunicao silenciosa entre eles, mas no conseguiu descobrir o significado do olhar que haviam trocado.
	Sim, senhor  riu Bret.  Pode confiar em mim  e virou-se para Ginny.  Espero voc l fora,
Assim que ele saiu, Ginny perguntou:
	Papai, no espera realmente que ele cuide de mim, no ?
	E claro que no, meu bem. Sei que  uma mulher adulta, com uma carreira, amigos e vida prpria. Agora que vai ficar sozinha, talvez possa at encontrar um namorado! Ouvi dizer que Joe Franklin est solteiro outra vez.
	Pai, no estou interessada num homem que tem trinta anos, aparenta cinquenta, age como se tivesse vinte, acaba de separar-se da terceira esposa e  incapaz de manter um emprego por mais de trs meses.
	Que pena...  e abraou-a. Com a cabea em seu ombro, ouvindo o som melodioso de seu riso, Ginny teve certeza de que seria difcil viver longe dele.
Por alguns momentos, lembrou-se de como havia sido antes da morte de sua me. Naquela poca era apenas uma garotinha feliz e sem responsabilidades... e de repente compreendeu que, indo para as montanhas, Hugh estava tentando devolver um pouco daquilo que ela perdera.
Fitando-o nos olhos, disse:
	Eu amo voc, papai. Acha que vamos nos ver no feriado de Ao de Graas?
	Pode contar com isso  e levou-a at o carro, onde Bret esperava com o motor ligado.
Partiram depois das ltimas despedidas e, notando sua expresso triste, Bret comentou:
	Ele vai ficar bem, Ginny.
	Eu sei.
	E voc tambm.
Ela sorriu, mas no respondeu. Manteve os olhos fixos na trilha de terra que os levaria  estrada principal, quinze quilmetros adiante, e pensou no trajeto de quase cem quilmetros at Webster.
A noite caa depressa e nuvens escuras encobriam o cu. Ginny sabia que devia estar mais preocupada com o pai, mas a presena de Bret a confortava e, subitamente, percebeu que estava contente e at curiosa com relao  liberdade que finalmente poderia experimentar. Cansada, inclinou a cabea no encosto e pensou no homem que, a seu lado, dirigia com ateno.
Bret ainda era um enigma, mas sabia que um dia poderia decifr-lo. Quando Carne fora visit-los, no final de semana anterior, haviam tido uma longa conversa e ela bancara o advogado do diabo, perguntando  irm o que poderia acontecer de to ruim caso se aproximasse novamente do ex-marido.
Ginny j conhecia a resposta. O pior seria apaixonar-se outra vez.
Haviam percorrido cerca de nove quilmetros quando Bret cravou os olhos no painel e exclamou:
	Essa no!
	O que houve?  ela perguntou, vendo que paravam.
	A luz do radiador est acesa.
Com uma lanterna que tirou do porta-luvas, ele desceu e abriu o capo. Ginny seguiu-o e os dois ficaram observando o motor sob o foco da lanterna, at que Bret anunciou:
	A mangueira do radiador est partida.
	Oh, no! O que vamos fazer?
Ele endireitou o corpo, fitou-a com expresso demonaca c ordenou:
	Tire a roupa.
	O qu?
	Por acaso est usando meia-cala?
	Bret, voc enlouqueceu?
	Responda!
	E claro que no! Por que usaria meia-cala por baixo da cala jcans?

	Droga!  e virou-se para observar o motor novamente.
	Quer fazer o favor de explicar?
	Explicar o qu?
	Por que me fez essa pergunta ridcula?
Brt encarou-a, sorriu com cinismo e disse:

	Porque queria ver se tinha coragem de tirar a roupa aqui, no meio do mato.
	Eu no acredito!
	Tudo bem, eu confesso. Li em algum lugar que  possvel emendar temporariamente uma mangueira partida com um par de meias de nylon. Satisfeita?
Desconfiada, Ginny fitou-o por alguns instantes antes de perguntar:
	Voc... quebrou, a mangueira de propsito s para testar sua teoria?
	E claro que no. No estou to desesperado para ver voc sem roupa.
	Engraadinho...
Fechando o capo, Bret decidiu:
	No podemos ficar aqui parados. Venha, vamos tentar chegar  estrada.
	Caminhando?  e olhou em volta, sentindo que as rvores pareciam ainda mais sinistras.
	Prefere esperar aqui?  e abriu a porta do carro.
	Eu... no.
	No se preocupe, Ginny, eu posso proteg-la dos animais selvagens  riu.
Sabia que Bret a protegeria contra o mundo, se necessrio, mas quem a protegeria dele? Vendo-o trancar o carro e guardar a chave no bolso, disse a si mesma que estava sendo tola. Estariam seguros se permanecessem juntos, e o nico lugar onde poderiam conseguir ajuda era na estrada, onde havia movimento.
	Melhor um demnio conhecido que um desconhecido murmurou para si mesma.
	O que disse?
	Nada.
	Ento, vamos  disse ele. segurando sua mo.  Ser uma caminhada de no mnimo uma hora, mas precisamos tentar. 
	Se tivermos sorte, talvez possamos encontrar uma cabana com telefone pelo caminho.
Haviam caminhado cerca de duzentos metros quando um vento gelado a fez arrepiar-se.
	Esqueci minha jaqueta no carro  disse.  Pode me dar as chaves?
	Eu vou buscar...
	No, eu posso ir. No se incomode  e correu at o carro.
Apressada, destrancou a porta, apanhou a jaqueta, vestiu-a, ajeitou a bolsa sobre o ombro, bateu a porta e voltou correndo.
	Pronto?  ele perguntou, estendendo a mo para soltar os cabelos que permaneciam presos sob a gola.
Confortada pelo gesto carinhoso, Ginny sorriu:
	Pronto. Se andarmos muito depressa vou sentir calor, mas...
	Duvido. Acabei de sentir os primeiros pingos de chuva.
	Est brincando!  e olhou para cima, sentindo as gotas sobre o rosto.  No, voc no est brincando. E agora?
Sentindo que a chuva tornava-se mais forte a cada segundo, Bret anunciou:
	Mudana de planos. Vamos voltar para o carro e esperar a chuva passar.
Suspirando, Ginny voltou sobre os prprios passos, pensando na tortura de ficar trancada com ele num espao to pequeno. Quando alcanaram o carro, Bret pediu:
	As chaves...
	Mas... eu j devolvi.
Ele apalpou os bolsos da cala e da jaqueta e disse:
	No devolveu.
	 claro que devolvi  e abriu a bolsa para procurar.
	Se jogou o chaveiro nessa bolsa, vai passar a noite procurando  exagerou. Vendo um objeto pequeno e brilhante sobre o banco do carro, indicou:  No precisa mais se preocupar.
Ginny. Acabei de encontrar as chaves.
	Eu rio disse? Sabia que...  e seguiu a direo que ele apontava.  Oh, no!
Lutando para manter a calma, Bret colocou as mos sobre o rosto e ficou cm silencio durante alguns instantes. Depois respirou fundo, aproximou-se dela e comentou com tom ameaador:
	Eu sou um homem muito paciente, Ginny.
	Graas a Deus  ela gemeu. Sentia vontade de rir. Mas reuniu todas as foras que tinha para controlar-se. Erguendo o rosto, deixou a chuva cair sobre ele para esfriar as emoes.
Bret andava de um lado para o outro como uma fera enjaulada:
	Muitos homens perderiam a cabea se a esposa trancasse a chave dentro do carro, numa estrada deserta, no meio de uma noite chuvosa.
	Mas eu no sou sua esposa.
	O que torna as coisas ainda piores. Sabe que qualquer tribunal do mundo pensaria duas vezes antes de me condenar por assassinato?
	Voc no faria isso. Pense em papai, em Carrie... Gosta tanto deles!
	No momento, gosto mais deles que de voc.
	Que coisa horrvel de se dizer  brincou. Notando que a chuva aumentava e que a situao era realmente crtica, tentou:
 Bret?	
	O que ?
	O que vamos fazer?
	No sei.
	Por que no quebra um vidro e entra pela janela?
Ele encarou-a como se houvesse sugerido que se suicidasse.
	Bret,  s um carro!
	Um carro novo que eu ainda no terminei de pagar!
Ela aproximou-se, examinou a trava de segurana e perguntou:
	Acha que no consegue abrir com um graveto, um grampo...?
	Eu sou jornalista, no arrombador.
	Foi s uma sugesto.
	Ridcula e absurda!
	Ento pense em alguma coisa!
	Estou tentando!
A discusso foi seguida por alguns minutos de silncio, durante os quais Ginny suportou com pacincia a chuva que ensopava suas roupas. De repente ela espirrou e, irritada, perguntou:
	Ainda no conseguiu ter uma ideia?
	Vamos fazer exatamente o que havamos combinado. Caminhar e pousou um brao sobre os ombros dela, obrigando-a a acompanh-lo. Ginny tentou afastar-se, mas ele impediu e disse:
 Nem pense nisso! Vai acabar caindo no meio da lama.
	Voc  to gentil  resmungou entre os dentes, sabendo que bateriam como castanholas se tentasse abrir a boca.
De repente a chuva transformou-se num temporal e ela comeou a tremer.
	Vamos andar depressa para ficarmos mais aquecidos Bret sugeriu.
Sentindo-se congelar, Ginny limitou-se a afirmar com a cabea e segui-lo. Bret devia estar to inconfortvel quanto ela e, no entanto, no estava reclamando. E nem tinha o direito, pois se tivesse cuidado da manuteno do cairo antes de viajar, agora no estariam metidos em encrencas.
Haviam caminhado quase um quilmetro quando ele parou e apontou para o meio das rvores.
	Olhe s aquilo.
Ginny seguiu a direo que ele indicava, mas no conseguiu ver nada. Com esforo, tentando enxergar atravs da gua que escorria sobre seus olhos, teve a impresso de estar vendo a coisa mais linda do mundo... uma cabana!
Escorregando e patinando na lama, Bret puxou-a pela mo enquanto iluminava o caminho com a lanterna.
Alcanaram a cabana, uma pequena construo sobre um espao coberto que devia servir de garagem, e encontraram a escada de madeira que levava at a porta. Subiram os degraus com cuidado e bateram, rezando para que algum viesse atend-los depressa. Esperaram alguns segundos e bateram novamente.
A chuva caa como um castigo dos cus, e os dois estavam absolutamente ensopados. Finalmente Bret virou-se para ela e constatou o bvio:
	No h ningum em casa.
	E... agora?  ela gemeu, batendo os dentes.
	S h uma coisa a fazer.
	O qu?
	Vamos entrar.

CAPTULO VII

Voc disse que no era arrobador- e espirrou, o rosto vermelho e gelado.
	Eu no vou arrombar a porta. Vou simplesmente abri-la.
	No faa isso! Podemos esperar na garagem at a chuva passar.
Brct fitou-a e viu que ela tremia incontrolavelmente, as roupas molhadas formando uma poa de gua no piso de madeira.
	Quando a chuva passar, voc vai estar com pneumonia dupla. No se preocupe, Ginny. Eu posso pagar pelos prejuzos e explicar tudo ao proprietrio  c inclinou-se para inspecionar a fechadura.  Se  que vai haver algum prejuzo. Posso abrir essa coisa com um carto de crdito.
Enquanto Ginny observava, ele tirou o carto do bolso e inseriu-o entre a porta e o batente, na altura da fechadura. Fez um rpido movimento... e o carto partiu-se ao meio.
Apesar do mal estar, Ginny no pde conter o riso ao ver a expresso frustrada no rosto dele.
	Onde aprendeu isso? Com seus amigos das ruas de Memphis?
	O carto deve estar congelado  exagerou, guardando os pedaos no bolso.
	Essa no  sua especialidade.
	E por acaso  a sua?
	Quem sabe? Se temos mesmo de entrar, ento "vamos fazer tudo direito  e abriu a bolsa, de onde tirou uma lixa de unhas.
 Segure a lanterna.
A princpio os dedos gelados negaram-se a cooperar, mas com pacincia e determinao, Ginny conseguiu encaixar a lixa no lugar certo e abriu a porta.
	Meu heri  Bret resmungou com desprezo, empurrando-a para dentro. Acionou o interruptor de luz ao lado da porta, mas nada aconteceu.  O proprietrio deve ter desligado a luz eltrica.
Com o auxlio da lanterna, examinaram o interior simples e despojado, onde viram um sof, duas cadeiras em torno de uma mesa de caf e duas camas de madeira presas  parede como prateleiras, uma sobre a outra. Aliviados, descobriram que havia um forno a lenha em um dos cantos e, ao lado dele, um pequeno cesto contendo folhas de papel e carvo:
Bret havia visto uma boa quantidade de lenha na garagem, e poucos minutos depois o fogo ardia acolhedor, espalhando um calor agradvel que logo tomou conta da pequena sala.
Ginny tremia como nunca, como se abrir a porta da cabana houvesse acabado com as poucas foras que ainda lhe restavam.
	Vai ter de tirar essas roupas molhadas  Bret avisou. Acendeu um lampio de querosene que havia encontrado sob a mesa e examinou o contedo do armrio. Felizmente encontrou dois conjuntos de cala e blusa e, conservando um deles para si mesmo, jogou o outro para ela.
	Ob... obrigada  Ginny gaguejou.  Onde fica o banheiro?
Ele riu, tirando a jaqueta e,a camiseta.
	Isso aqui  uma cabana, meu bem, no um hotel cinco estrelas. Vai ter de mudar de roupa aqui mesmo. Alm do mais, j nos vimos nus antes, lembra-se?
Ginny apertou os lbios com fora e tentou demonstrar naturalidade. A ltima coisa que desejava lembrar naquele instante eram os momentos de intimidade que haviam dividido no passado. J estava fraca o bastante, e sentia-se atraente como uma vassoura molhada. Com um suspiro resignado, como se deixasse claro que no estava feliz mas que poderia suportar, tirou a jaqueta molhada, a camiseta, e vestiu a blusa que chegava at a metade de suas coxas. Aliviada, sabendo que no teria realmente de expor-se diante dele, tirou os sapatos, a cala jeans e vestiu a cala velha e surrada.
Era enorme, c teve de pux-la at o peito e enrol-la para evitar que arrastasse no cho. Satisfeita, virou-se para estender as roupas molhadas em algum lugar perto do forno... e parou chocada.
Bret ainda no havia terminado de vestir-se e, usando apenas a cala larga, cuja cintura ficava na altura de seu quadril, examinava a blusa tentando adivinhar qual era a parte da frente.
Ginny engoliu o n que formara-se em sua garganta e desviou os olhos depressa, enquanto ele finalmente vestia a blusa.
	Algum problema, Ginny?
	N..i no  gaguejou, levando uma das cadeiras para perto do forno e ajeitando as roupas molhadas sobre ela.
Ele fez o mesmo e depois foi buscar mais lenha na garagem. Enquanto isso, Ginny decidiu inspecionar as camas e o sof. Preferia no ter de passar a noite ali, pois a poeira cobria cada canto da sala e a sujeira espalhava-se por toda a cabana. De qualquer forma, as camas pareciam bem slidas, embora alguns parafusos estivessem frouxos.
Com cuidado, desenrolou os colches que encontrou nos ps das camas e, aliviada, viu que no continham nada mais perigoso que sujeira e alguns insetos monos, que ela jogou no cho. Pelo menos teriam camas separadas. Agora s precisava encontrar travesseiros e cobertores.
	A chuva est diminuindo  ele informou ao entrar, deixando a carga de lenha ao lado do forno.  Quando amanhecer poderemos ir at a estrada em busca de ajuda.
Ginny percebeu que no sentia mais frio, e concluiu que v-lo com o peito nu e saber que passariam a noite juntos servira como fonte de calor. Mesmo assim, aproximou-se do forno c estendeu as mos, mantendo os olhos cravados nas chamas ao perguntar:
	Acha que h alguma comida por aqui?
	No sei, mas se houvesse alguma justia neste mundo, voc carregaria um jantar completo naquela bolsa.
Ginny virou-se e mostrou a lngua. Rindo, Bret foi at a pequena cozinha para inspecionar os armrios.
	Nada alm de um pouco de ch. Quer tentar?
Ele parecia to a vontade, que Ginny sentiu-se subitamente tola. Era bvio que no a via como ela o via. E por que deveria? Passara as ltimas semanas garantindo que a relao entre eles no passaria do nvel profissional, e eram apenas os seus joelhos que tremiam ao lembrar daquele coipo e dos beijos quentes daqueles lbios. Desde a feira municipal, Ginny tivera todo o tipo de desejos malucos e inconfessveis, mas Bret no dera nenhum indcio de ter pensado nas mesmas coisas.
Escondendo os reais sentimentos, ela respondeu:
	Grande ideia, mas onde vamos conseguir gua quente?
	Confie em mim  e apanhou a chaleira. Enquanto dirigia-se  porta, disse:  Eu vi uma bomba manual l fora, e o forno est aceso.
Pouco tempo depois, ambos seguravam xcaras fumegantes com o ch surpreendentemente saboroso. Bret estendeu um acolchoado diante do forno e ajeitou os travesseiros, fazendo uma espcie de ninho aquecido sobre o tapete.
O lugar parecia to aconchegante, que Ginny no hesitou e foi acomodar-se, reclinando-se sobre um dos travesseiros e equilibrando a xcara sobre o estmago. O ch no s os aquecia, como ajudava a relaxar.
Se algum perguntasse, seria incapaz de nomear todas as emoes que a invadiam; receio, alegria e at um certo ressentimento por ele a tratar como se fosse uma de suas irms.
	Est confortvel?  Bret perguntou.
	Muito.
	Aquecida.
	Bastante.
Os dois ficaram em silncio e o crepitar do fogo foi o nico som na cabana durante alguns momentos. Ginny olhou para ele e viu que esfregava um p contra o outro, um movimento que costumava fazer quando estava pensando, e lembrou-se dos momentos que haviam passado juntos c sozinhos. Lutara muito para afastar essas lembranas, mas agora era como se elas a dominassem, determinadas a bombarde-la at que admitisse a verdade.
	Estamos sozinhos, Ginny  ele disse, como se pudesse ler seus pensamentos.
	Eu sei  respondeu de cabea baixa, mantendo os olhos fixos na xcara de ch.
	Vamos passar a noite aqui. Fico me perguntando se no sabia o que estava fazendo quando trancou as chaves no carro.
	O qu?
	Talvez um comportamento determinado por algum desejo inconsciente...
	Bret, por acaso perdeu o juzo?
	No. Se estou tentando saber se percebeu que chegou a hora de termos uma conversa.
	Que tipo de conversa?
	Quero saber por que me deixou. Fiz a mesma pergunta h mais de um ms, e acho que mereo uma resposta honesta.
Desanimada, forou-se a encar-lo. Tivera esperanas de que ele acabasse desistindo do assunto, mas agora compreendia que isso jamais aconteceria. Deixando a xcara no cho, Ginny tentou levantar-se, mas Bret segurou-a pelo pulso e puxou-a de volta.
	Vau fugir? Para onde? L fora est frio e molhado, e eu escondi seus sapatos.
	Voc fez o qu?
	Escondi seus sapatos quando fui buscar mais lenha. Portanto, trate de encarar a realidade de uma vez por todas. A menos que seja realmente a covarde que eu imagino...
Bret sabia que isso despertaria seu orgulho, e foi exatamente o que aconteceu.
	Eu no sou covarde e no tenho medo de nada!
	Ento diga de uma vez.
No havia como escapar. Com um suspiro resignado, Ginny comeou a falar, disposta a acabar com aquele tormento definitivamente.
	Depois do primeiro ms, percebi que havia me casado com um estranho. Ns fomos precipitados, e devamos ter esperado mais tempo antes de nos casarmos.
	Quando se tem certeza do que quer, no h necessidade de perder tempo com esperas inteis. E nosso casamento foi uma deciso acertada.
	Eu no concordo. Precisava de mais tempo e da aprovao da minha famlia. Meu pai e eu tivemos uma terrvel discusso na noite anterior ao nosso casamento.
	Mas agora ele gosta de mim. Ou no teria me contratado, concorda?
	Concordo e... fico feliz por isso, mas...
	Mas no  capaz de esquecer o passado.
	No  s isso  e passou a mo pelos cabelos num gesto nervoso.  Pensei que tudo se ajeitaria quando fossemos marido
e mulher, mas fomos morar na mesma casa e eu raramente o via! No era como eu achava que um casamento devia ser.
	E como achava que devia ser?
Ela encolheu os ombros:
	Como o dos meus pais.  Levou a mo  boca para roer as unhas, mas Bret puxou-a pelo pulso. Irritada, encarou-o e viu que ele a observava de maneira fixa, como se tentasse ler seus pensamentos.
	No acha que est encarando a realidade de maneira muito romntica? Sua me morreu quando voc tinha doze anos.  Vendo um brilho de raiva em seus olhos, Bret ergueu as duas mos e explicou:  Espere um pouco, eu ainda no terminei.
No estou dizendo que enganou-se a respeito de seus pais, mas acho que era jovem demais para saber o significado de um casamento. Por isso no conseguimos conversar sobre nossos problemas.
	Bret, como podamos resolver nossos problemas se voc nunca estava em casa? Ns nem nos vamos!
	Mas agora estou aqui
Cruzando os braos sobre o peito, ela cravou os grandes olhos azuis no rosto dele e perguntou:
	Por quanto tempo?
	J disse que vim para ficar. Agora podemos resolver nossos problemas.
	Agora  tarde, Bret. Estamos divorciados.
	Engraado, eu no me sinto divorciado. Especialmente neste exato momento.
Ele aproximou-se, fez com que ela descruzasse os braos e abraou-a delicadamente, puxando-a para mais perto.
	Pare com isso  Ginny pediu, o corao disparado ecoando na voz entrecortada.
	Isso o qu? Gostar de voc? Desculpe, mas no posso. No quer que eu a abrace e beije? Est pedindo o impossvel. No consigo pensar em mais nada desde a noite da feira  e beijou-a.
Ginny sabia que devia resistir, mas no conseguia. Com um murmrio de desespero, entregou-se ao beijo possessivo e glorioso que tanto desejara nos ltimos meses, aninhando-se nos braos do homem que sempre a fizera sentir-se querida e protegida.
Sem nenhuma hesitao, sem cuidados ou preocupaes, retribuiu o beijo e abraou-o com ternura.
	Voc emagreceu  ele murmurou, deslizando as mos sob a blusa larga e acariciando sua pele.  O que andou fazendo com sua sade?
Ginny estava to envolvida pelas emoes, que nem pensou em proteger quaisquer segredos que pudesse ter:
	Eu no conseguia comer nem dormir quando voltei para casa. Estava muito preocupada com papai e com o fim do nosso casamento, e me sentia...  e parou, compreendendo que corria o risco de falar demais.
Bret soltou-a e endireitou o corpo como se houvesse sido espetado por uma agulha, e a paixo que antes havia em seus olhos deu lugar a um brilho de compreenso. Querendo ler toda a verdade em seu rosto, tocou-a no queixo e a fez encar-lo.
	Continue. O que ia dizer?
	Nada...  gemeu desesperada, tentando por um pouco de ordem nos pensamentos confusos. Desviou os olhos dos dele e levantou-se, mas mesmo assim podia sentir uma espcie de magnetismo chamando-a de volta.
Bret no estava disposto a deix-la escapar. Levantou-se e, com expresso sria, parou diante dela, fitando-a nos olhos. Estavam perto do forno, mas o calor das chamas no era nada comparado ao abrao ardente de Bret. Angustiada, disse a si mesma que no podia apaixonar-se novamente, pois no suportaria se ele a abandonasse. E era exatamente isso que temia... am-lo novamente e no ser capaz de mant-lo a seu lado para sempre.
	Ginny, fale o que ia dizer.
Ela balanou a cabea:
	No  importante. Ou melhor, agora j no tem nenhuma importncia...
	 claro que tem. Voc ia finalmente dizer o que sentiu quando me abandonou.
	Eu j disse tudo o que queria  e afastou-se, pegando o travesseiro do cho e jogando-o sobre a cama.
Em seguida apanhou o lampio e aproximou-se do armrio, procurando os cobertores que, apesar de finos, serviriam para aquec-los se mantivessem o forno aceso. O cheiro de mofo era insuportvel, mas no tinham outra alternativa.
Vendo-a sacudir os cobertores empoeirados, Bret aproximou-se, parou diante dela e apontou um dedo em sua direo:
	Voc sabe que no pode fugir para sempre. Um dia, de alguma maneira, vai ter de me dizer a verdade.
Ginny jogou um cobertor para ele e respondeu:
	No tenho mais nada a dizer.
	Voc est com medo!  explodiu furioso.  Por que no admite?
Indignada e irritada com a insistncia, ps uma das mos na cintura, encarou-o e gritou:
	E do que eu haveria de ter medo?
	Dos seus sentimentos! Meu Deus, voc vai fazer vinte e quatro anos no ms que vem! No acha que j  hora de encarar as coisas de uma maneira mais adulta?
A mistura de emoes provocou uma reao explosiva e descontrolada, intensificada pelo desejo frustrado, pela raiva e o medo que realmente sentia e que no podia admitir.
	Que coisas, Bret? Eu encaro as coisas muito bem!  voc quem deve encarar o fato de que no quero mais suas mos em cima de mim!
	Agora tambm vai acrescentar a mentira  sua lista de crimes? H menos de cinco minutos estvamos nos beijando, e no me lembro de voc ter protestado ou tentado impedir.
No podia negar algo to evidente, e no seria capaz de admitir a verdade e suportar o embarao. Por isso, lanou um olhar de censura em sua direo e mudou de assunto:
	Que cama vai querer?
Bret fitou-a como se estivesse prestes a estrangul-la:
	Voc  a mulher mais irritante que j conheci em toda minha vida, sabe?
	Que cama vai querer?
 Qualquer uma, droga! Deus nos livre de dividir uma cama!
	Ento eu vou ficar com a de cima.
	No diga! E como vai subir? Caso no tenha notado, no h nenhuma escada.
	Eu posso pular  garantiu, jogando o cobertor sobre a cama.
	Vou buscar uma cadeira para voc.
	No, obrigada  e fitou-o com olhos que eram to frios quanto a voz.
	Voc est sendo infantil e insensata.
Sabia disso, mas no podia evitar. As emoes que conseguira represar durante meses agora a dominavam, roubando sua capacidade de raciocnio e destruindo todas as barreiras que construra em torno do corao, e Bret era como um vento forte soprando suas defesas e derrubando-as como um castelo de areia.
Decidido a ignorar as demonstraes de pouco caso, Bret encolheu os ombros e foi alimentar o fogo com mais lenha. Depois pegou o lampio de gs, deixou-o sobre a mesa de caf e foi sentar-se na cama de baixo.
	Eu apago a luz assim que voc estiver deitada.
	Como quiserela respondeu, tomando distncia para pular.
	Tem certeza de que prefere subir desse jeito?  e deitou-se, como se estivesse prestes a presenciar um grande espetculo.
	Vai ser fcil. Eu fazia ginstica olmpica no colgio, lembra-se? S preciso de um pouco de distncia para correr e tomar impulso.
Preparando-se, puxou a cala e enrolou-a novamente na altura da cintura, certificando-se de que no tropearia nas pernas ao correr.
	Por que no me deixa ajud-la?
	Porque sou perfeitamente capaz de subir sozinha!
	Muito bem, v em frente.
Com os olhos expressando toda a irritao que sentia, Ginny retrocedeu mais alguns passos e, girando os braos para a frente, ergueu-se na ponta dos ps e partiu em direo  cama. Saltou, bateu as mos no colcho e girou o coipo no ar para cair sentada. Quando sentiu que havia conseguido, foi invadida por uma sbita sensao de triunfo. Sbita e rpida, porque em seguida a madeira cedeu, o estrado partiu-se e ela caiu.

CAPTULO VIII

Foi tudo to rpido, que Bret s teve tempo de gritar antes de ser atingido pelos pedaos de madeira e por Ginny, que caiu sentada sobre seu peito. O peso dos dois corpos e dos destroos foi demais para a cama que ele ocupava, e tudo desabou sobre o piso de madeira.
Ginny ficou petrificada e imvel, piscando para o teto e tentando recuperar o ar que, com o impacto, fora expulso de seus pulmes. Vrios segundos se passaram antes que ela registrasse o som abafado de um gemido e percebesse o que significava.
	Bret!  gritou, rolando o corpo e caindo sobre os prprios joelhos. Apavorada, afastou o colcho que o sufocava e insistiu:
 Bret, voc est bem? Por favor, fale alguma coisa!
Assim que o colcho foi removido, viu que ele estava praticamente soterrado sob uma montanha de pedaos de madeira, to assustado quanto ela. No entanto, no havia nenhum ferimento aparente. Apoiada sobre as mos e os joelhos, inclinou-se para a frente para examin-lo com mais cuidado e ver se havia algum sinal de sangramento. A princpio no viu nada que merecesse cuidados imediatos, mas ainda havia a possibilidade de um ferimento interno.
Bret fitou-a com olhos arregalados e balanou a cabea devagar, de um lado para o outro. Moveu os lbios, mas no produziu nenhum som.
Ginny comeou a retirar as tbuas, atirando-as para trs. Enquanto abria um caminho por onde ele pudesse sair, resmungava com tom desesperado:
	Desculpe. Eu no sabia que isso podia acontecer... Eu nem pensei que... As camas pareciam to slidas! Voc est bem? Est machucado? Por que no fala comigo?
	Falar?  ele gemeu, pondo as mos sobre o peito e o estmago.  Eu no consigo nem respirar!
	Oh, no! Eu machuquei voc, no ?  e olhou em volta, procurando alguma coisa que pudesse servir para os primeiros socorros.  No h sequer um telefone nesta espelunca! Por que o estpido do proprietrio no instalou um telefone?
	Porque provavelmente no esperava que dois malucos abrissem sua porta com uma lixa de unhas e usassem sua cama como trampolim  disse ele com tom irritado, tentando sentar-se.
Ginny no ouviu o comentrio irnico.
	No posso nem chamar uma ambulncia! Droga, por que fui trancar as chaves no carro? Como fui idiota!
Bret suspirou e, tocando-a delicadamente na mo, sugeriu:
	Por que no tenta vencer todo esse pnico, meu bem? Em vez de ficar gemendo e reclamando, podia me ajudar a sair daqui.
	Oh,  claro!  e estendeu a mo para tir-lo do que havia restado das camas. Algumas tbuas ainda estavam presas  estrutura de cima, e suas pontas balanavam perigosamente sobre a cabea de Ginny. Com cuidado, afastou-as para o lado e abriu um caminho por onde Brct pudesse sair da zona de maior perigo,e depois segurou-o por baixo dos braos, tentando pux-lo para
fora da pilha de destroos.
Bret conseguiu virar-se e, devagar, engatinhou para longe dos colches.
	Felizmente o cho ainda  slido  disse ao sentar-se ao lado dela.  Caso contrrio, teramos de passar a noite na garagem.
	Foram os cupins. Eu sabia que essas tbuas no podiam ser seguras.
	Ento por que insistiu em pular daquele jeito?
	Eu esqueci...  respondeu com tom culpado, os olhos azuis cheios de desnimo. Preocupada, deslizou a mo pelo brao dele e insistiu:  Tem certeza de que est bem? Dcixc-me ver suas costas.
Bret virou-se devagar, emitindo alguns gemidos de dor, e ela ajoelhou-se a seu lado, levantando sua blusa para verificar a existncia de algum ferimento. Alm de algumas manchas vermelhas e arranhes causados pelo impacto, no havia nada de mais grave.
Incapaz de deter-se, Ginny inclinou-se e beijou a regio avermelhada.
	Ginny...
	Oh! Desculpe, Bret, eu... Eu no sei o que houve comigo . e abaixou sua camisa.
	Est desculpada. Existem dezenas de outros lugares que eu gostaria que beijasse, mas acho que ainda no est preparada para isso.
	No estou?  perguntou, evitando encar-lo.
Sabia que no estava. Nem para beij-lo, nem para estar to perto dele. Na verdade, no conseguia entender sequer as coisas que estava sentindo. Num momento mostrara-se indignada e ofendida, depois agira como uma boba infantil e inconsequente, e veja s no que acabara sua irresponsabilidade!
	Sabe de uma coisa, Ginny? Estou arrependido por no termos decidido ter um filho. Agora fico imaginando se algum dia serei pai.
Ginny levou alguns segundos para compreender o significado do que ele havia dito e, quando conseguiu, sentiu que o rosto ficava vermelho.
Sorrindo, Bret apontou para o lampio de querosene e comentou:
	Felizmente levei aquela coisa para longe das camas. Se o vidro tivesse quebrado, agora estaramos tentando combater um incndio  e piscou com ar divertido.  Acho que vou me inscrever na brigada de bombeiros voluntrios de Webster. Com voc por perto, nunca se sabe o que pode acontecer.
	Eu sei que a culpa foi minha. No precisa ficar me acusando a cada minuto.
Ele encolheu os ombros. O movimento o fez gemer de dor e Ginny sentiu-se novamente arrependida por ter agido de forma to irresponsvel.
	Vamos por o colcho no cho, perto do forno  Bret sugeriu.  Era o que devamos ter feito desde o inicio.
	Eu fao isso sozinha  disse ela, levantando-se e arrastando o colcho pela sala.
Colocou-os sobre o tapete, bem separados, e depois voltou Paia apanhar os travesseiros c cobertores.
Um pouco tonto, Brct levantou-se e foi atrs dela. Olhou para o resultado final, balanou a cabea e anunciou:
	Voc enlouqueceu. No podemos deixar um dos colches to perto do forno. Vai acabar pondo fogo na casa, Ginny!
	Espere um minuto, seu...!
	No adianta discutir  e ajoelhou-se, pondo um colcho sobre o outro.  Vamos dormir juntos. Chega de acidentes por aqui. Alm do mais, assim ficaremos mais quentes.
Sabia que ele no estava disposto a discutir, mas tinha de tentar ao menos adiar o inevitvel.
	No quer que eu faa uma compressa fria nas suas costas, ou...?
	No, obrigado. A nica coisa que eu quero  dormir  e deitou-se, enquanto ela fingia arrumar o cobertor. Notando que ela tentava adiar o momento de deitar-se a seu lado, Bret ergueu a ponta do cobertor que usava e disse:  Sei que j dormimos juntos antes, mas dou minha palavra de que desta vez ser diferente.
Diferente? Se estar perto dele j era difcil, dormir ao lado dele seria um verdadeiro tormento! Ou no? De repente lembrou-se dos seis meses de sonho dos quais despertara violentamente e, emocionada, abaixou a cabea, fingindo ajeitar o travesseiro. Vendo o brilho intenso em seus olhos, Bret sentou-se e sussurrou:
	Ginny...
	Tudo bem...  ela interferiu, ajoelhando-se sobre o colcho.
 J vou me deitar.
Ele esperou que ela se acomodasse e depois deitou-se de lado, apoiando o brao sobre sua cintura e fazendo-a encostar o coipo ao dele.
A princpio Ginny sentiu-se apavorada e ameaada, mas depois relaxou e apoiou a cabea na curva de seu ombro. Sabia que aquela no era uma boa ideia, mas pela primeira vez na vida decidiu ignorar seus medos e dvidas. Afinal, aquela tambm era a primeira vez que sentia-se absolutamente segura nos ltimos meses. Segura e protegida.
Apesar de Bret ter apagado o lampio antes dela deitar-se, o fogo que os aquecia tambm iluminava a sala o suficiente para que pudessem ver um ao outro e, satisfeita, Ginny fechou os olhos. Estava quase dormindo quando ele falou:
	Voc est certa sobre uma coisa.
	Que coisa?  murmurou sonolenta, sem abrir os olhos.
	Ns fomos precipitados. Precisamos de tempo para nos conhecermos melhor e, j que no podemos voltar no tempo, vamos comear tudo outra vez.
Isso a despertou totalmente. Confusa, virou a cabea e tentou ler alguma coisa em seu rosto:
	O que quer dizer com isso?
	Que vamos comear a namorar novamente.
	Namorar?  Carrie perguntou do outro lado da linha.  Pensei que estivesse tentando ficar longe dele. Pelo menos foi o que voc disse quando eu estive a.
	As coisas mudaram... Alm do mais, a ideia foi dele, e eu ainda no disse que concordava  respondeu, segurando o telefone com uma das mos e escovando os cabelos com a outra.
Havia tomado um banho e vestido roupas limpas e confortveis, mas depois de tudo o que acontecera, precisava conversar com algum e decidiu ligar para a irm. Disse a si mesma que queria apenas contar que o pai chegara e bem e j estava instalado, mas na verdade sentia necessidade de ouvir uma voz familiar.
Naquela manh, ela e Bret haviam caminhado durante uma hora em busca de um telefone, de onde chamaram um chaveiro e um mecnico. Depois de abrirem o carro e repararem a mangueira do radiador, levaram mais meia hora para percorrer o restante da trilha de terra, encharcada pela chuva, e finalmente alcanaram a estrada que levava a Webster. Felizmente o dono da cabana que Hugh alugara conhecia o proprietrio da casa que haviam invadido, e Bret conseguira telefonar para ele, explicar a situao e desculpar-se, oferecendo-se para pagar todos os prejuzos. O homem garantira que ia pensar no assunto e fazer um levantamento dos danos, e que depois entraria em contato. Mas Ginny no estava realmente preocupada com isso, porque ainda tentava desvendar o mistrio de seus sentimentos.
	Voc no parece muito disposta a afastar-se dele  Carne observou.  Afinal, o que exatamente est querendo?
	Quero ter certeza de estar tomando a deciso correia  respondeu com honestidade. Essa era a nica coisa da qual tinha certeza.
	Lembra-se de quando eu falei sobre a universidade, no ltimo outono?
E claro que sim.
	Voc me disse que a melhor maneira de escolher a melhor entre todas as opes  buscar informaes sobre todas elas.
	E da?
	Bem, agora voc deve aproveitar para saber tudo o que puder sobre Bret. Se ele no for a pessoa certa para voc, logo vai descobrir. Caramba, Ginny, ser que vou ter de passar o resto da vida dizendo o que deve fazer?
Rindo, Ginny encerrou a conversa e desligou, disposta a pensar com cuidado antes de decidir o que fazer.
Aproximando-se da janela, viu que o sol havia secado boa parte da chuva da noite anterior e resolveu aproveitar para comear a recolher as folhas que haviam cado durante a tempestade. Hugh contratara um garoto para fazer o servio uma vez por semana, mas ela sabia que se no encontrasse uma atividade fsica para aliviar a tenso, acabaria enlouquecendo. Alm do mais, novas nuvens negras comeavam a formar-se no horizonte, e o excesso de folhas impediria o escoamento da gua e acabaria transformando o quintal num lago.
Animada, vestiu uma jaqueta e saiu para apanhar a vassoura e alguns sacos de lixo. Enquanto trabalhava, aproveitava para pensar em tudo que havia acontecido nas ltimas semanas, desde a raiva que sentira quando Bret ocupara o cargo que havia sido seu, at o alvio de perceber que podia novamente dedicar-se  funo de reprter sem pensar nos detalhes burocrticos e financeiros do jornal. Bret estava fazendo um excelente trabalho, e ela sentia que tambm melhorara muito em pouco tempo.
A princpio imaginara que ele partiria em seguida, mas agora estava engajado em diversas instituies cvicas e sociais, e parecia feliz com a vida calma da pequena cidade. Chegara a pensar que ele havia voltado por sua causa, mas que homem voltaria a procurar a mulher que o abandonara num hospital, ferido e sozinho, para correr atrs do pai? Bret no poupara palavras para expressar sua opinio a respeito da atitude covarde que tivera, c agora ela j no sabia mais o que pensar.
Temera aproximar-se dele e descobrir que o ex-marido ainda representava um papel importante em sua vida, c fora exatamente o que havia acontecido, embora de maneira diferente. Agora ele lhe dava algo de que sentira falta durante o breve casamento: respeito e cortesia. No escritrio, ouvia suas ideias e lhe dava o credito quando as utilizava. Quando conversavam, mostrava-se atento e interessado, e quando a beijava... seria capaz de segui-lo at o inferno por um daqueles beijos.
Imersa nos prprios pensamentos, Ginny no ouviu os passos que se aproximavam, e sobressaltou-se ao escutar a voz de Bret.
	Boa tarde, senhorita.
	Senhorita?  riu surpresa.
Mas ao ver a expresso que ele tinha no rosto, o sorriso desapareceu de seus lbios e um arrepio percorreu-lhe a espinha. Ele voltou a falar como se estivesse diante de uma estranha:
	Como vai? Eu sou Bret Calhoun. No pude deixar de ver que est fazendo um trabalho muito pesado, e vim oferecer ajuda.
	Bret! Uma daquelas tbuas deve ter atingido sua cabea!
Ele franziu o cenho:
	No estrague os meus planos, por favor. Combinamos comear novamente, lembra-se?
	Sim, mas...
	E eu no conheo maneira melhor de comear uma conversa, seno pela apresentao  e voltou a assumir a expresso de antes.  Qual  o seu nome?
	Isso  ridculo!
	No seja desmancha-prazeres! Qual  o seu nome?
Com um suspiro resignado de quem conhece a determinao de seu interlocutor, ela respondeu:
	Ginny McCoy.
	Ah, a verdadeira McCoy. Finalmente a encontrei.

	J tivemos um comeo como esse e o resultado foi catastrfico.
	Tem uma ideia melhor?
	No...
	Mas concorda que comear novamente  uma boa sugesto...
	Depende. Onde isso vai nos levar?
Ele abriu os braos e, com expresso inocente, respondeu:
	Onde voc quiser.
Ginny pressionou o estmago com as mos e, perturbada, perguntou:
	Eu quero saber a verdade. Bret. Por que veio para Webster?
Pretende realmente ficar aqui? Agora que ganhou o McKellar, pode receber o salrio que quiser em qualquer jornal do pas...
Bret olhou para o fundo do quintal e respondeu com voz distante:
	Alguma vez eu disse por que decidi ser jornalista?
	Nunca.
Ele sorriu:

	Porque achei que era uma das poucas oportunidades para um homem honesto mudar o mundo.
	E mudou de ideia?
	Percebi que estava enganado. Ser reprter no envolve apenas altrusmo e coragem na busca da verdade.  competio, e principalmente vaidade. Eu me tomei to competitivo com relao s minhas histrias e fontes, que algumas vezes me comparei a um cachorro brigando pelo osso.
	Que exagero!
	Voc acha? Pois eu me tomei to ambicioso e prepotente, que perdi o que tinha de mais importante na vida.
O brilho em seus olhos a fez compreender que referia-se a ela, e Ginny sentiu-se grata por ele no ter sido mais direto, pois ouvir a confisso com todas as palavras seria receber uma presso para a qual no estava preparada. Satisfeita com o que j sabia, decidiu esperar que as outras respostas viessem com o tempo. Afinal, tambm no havia dito tudo o que ele queria saber...
Desde que Brct voltara, ela tentava obter todas as respostas de imediato para certificar-se de que o futuro seria definido e seguro, mas as experincias da adolescncia, como a morte da me, o curto perodo de alcoolismo de Hugh, os cuidados com Carric e a necessidade de adiar os planos de uma carreira, j deviam ter lhe mostrado que o futuro nem sempre pode ser definido e estvel.
Tentara obter uma garantia de que tudo daria certo, de que Bret estaria sempre ali e de que nunca ficaria sozinha, mas agora compreendia que o melhor era relaxar e deixar acontecer, porque ningum pode controlar o futuro.
Lendo o resultado da guerra de emoes em seu rosto, Bret sorriu e ps o brao sobre seus ombros:
	E ento?  perguntou, pegando a vassoura das mos dela.
	Quer ajuda, ou no?
	 claro que sim  e sorriu, olhando para o cu escuro.
	Mas  melhor nos apressarmos, porque vai chover outra vez.
Quando terminaram, Brct convidou-a para jantar e ela aceitou com alegria. Foram a um restaurante no centro, onde era servido o melhor churrasco da cidade, e comeram entre risos e piadas.
Voltaram para casa trocando acusaes sobre o exagero da refeio e no caminho pararam para alugar um filme, que assistiram sentados no sof, abraados e felizes. Quando Bret foi para o seu apartamento, Ginny estava to cansada que adormeceu assim que encostou a cabea no travesseiro.
A semana inteira transcorreu no mesmo clima. No jornal, nem sempre concordava com ele, e frequentemente tinha de falar alto para impor suas opinies, mas em nenhum momento deixava de respeit-lo.
O dono da cabana na montanha telefonou para dizer que decidira demolir a casa, que considerava uma fonte de azar, e os dois riram durante horas lembrando o acidente com as camas. Ginny j no se preocupava com os motivos das mudanas de Bret e nem com uma possvel partida repentina, pois havia decidido aceitar as coisas conforme acontecessem.
Durante a noite esqueciam o trabalho e Bret dedicava-se exclusivamente a ela. Tudo era novo e encantador, mas Ginny ainda experimentava um certo receio por receber subitamente a ateno e  carinho que tanto desejara durante o casamento.
Ele a provocava quando roa as unhas e sugeriu que procurasse uma manicure, dizendo que, se tivesse de pagar por unhas bonitas, estaria menos inclinada a destrui-las a dentadas. Embora no acreditasse muito em sua linha de raciocnio, Ginny decidiu seguir sua sugesto e surpreendeu-se ao descobrir que dava certo. Orgulhosa, mostrou as mos a Dris e recebeu de volta todo o dinheiro que pagara nos ltimos meses. Com o lucro inesperado, decidiu levar Bret para um jantar de comemorao.
Na sexta-feira ele a convidou para acompanh-lo  casa de Sam e Laura, pois havia prometido ajudar o irmo a colocar o papel de parede no quarto do beb. Em troca, teriam um delicioso jantar em famlia.
Quando pararam diante da casa do casal, nuvens negras anunciavam mais uma tempestade.
	Sempre amei este lugar  disse Ginny com um suspiro, olhando para as janelas iluminadas.  Quando eu era pequena.
mame me vestia com as roupas de domingo e me trazia para o ch com a sra. McCord, a tia de Laura.  engraado, mas eu j conhecia Laura antes mesmo de v-la pela primeira vez.
Bret desceu do cairo e foi abrir a porta para ela.
	Aconteceu o mesmo com Sam  contou.  A sra. McCord vivia falando sobre a sobrinha maravilhosa, sua nica herdeira, e acabou nomeando meu irmo como executor do testamento. Esperta, no acha?
	Muito  concordou, imaginando como tudo teria sido diferente se ela e Bret houvessem realmente se conhecido antes do casamento.
Com uma pontada de inveja, pensou na vida simples e feliz do casal de amigos. Os gatos que Laura herdara com a casa, o trabalho de Sam treinando seus lindos ces perdigueiros e, acima de tudo, a criana que estavam esperando. Mas ento Laura abriu a porta e sorriu, tentando livrar-se dos dois felinos que enroscavam-se em seus tornozelos, e Ginny sentiu uma imensa felicidade pela amiga.
O casal mostrou-se bastante satisfeito com sua presena, e enquanto os homens foram buscar o material para colocar o papel de parede, Laura convidou-a para conhecer o quarto do beb. Enquanto subiam a escada, Laura ia comentando as melhorias | que haviam feito na casa nos dois ltimos anos.
Antes do casamento, Sam morava na casa ao lado, onde tinha | um grande canil no quintal, e depois do matrimnio transformara sua antiga residncia num escritrio e mudara-se para a casa da esposa. Os ces ficavam no canil e os gatos tinham absoluta supremacia no solrio que ele construra do lado de fora, perto da cozinha.
De repente Laura parou no meio da escada e respirou fundo, amparando a barriga com uma das mos. Assustada, Ginny se-1 gurou-a pelo brao e perguntou:
	O que foi? Est sentindo alguma coisa?
	No  sorriu.  Fico cansada por qualquer coisa, e se esse beb no vier logo, vou ter de passar o resto da gravidez l embaixo. Felizmente Sam construiu um banheiro entre a sala de estar e a cozinha.
	Tem certeza de que pode subir?
	Exerccio... o mdico disse que  necessrio e saudvel e seguiu em frente.
Entraram no quarto do beb e Ginny foi incapaz de esconder o encantamento:
	 lindo!
O dormitrio havia sido pintado num tom suave de pssegoe apenas uma das paredes receberia o papel, cujo desenho de carrossis acompanhava o restante da decorao.
Laura mostrou o edredom estampado que colocara sobre o bero e comentou:
	Acho que perdemos a noo de limite, mas...  nosso primeiro filho.
	Eu entendo  murmurou, tentando esconder as lgrimas que queimavam seus olhos.
Felizmente conseguiu cont-las, porque os homens entraram minutos depois e Sam anunciou com orgulho:
	Ns reformamos a casa inteira, sabe? Pensei que nunca mais fossemos terminar...
	No reclame - Laura censurou com um sorriso apaixonado.
 No quer que seu filho more numa casa feia e sem graa, quer?
	Esto vendo? D um dedo e ela quer o brao. Vamos, Bret, o dever nos espera. Vai chover novamente, e no quero perder todo o trabalho por causa da umidade.
Ginny examinou o quarto mais uma vez e sentiu que Bret a observava. Estava sorrindo, como se pudesse ler seus pensamentos com preciso, e uma onda de calor os envolveu como se houvessem trocado um longo abrao.
Inconsciente da emoo que flua entre Bret e Ginny, Laura segurou-a pelo brao e convidou:
	Vamos descer e terminar o jantar. Esses dois vo estar mortos de fome quando terminarem.
Ginny seguiu-a, pensando no quanto era feliz quando no estava tentando definir tudo o que acontecia entre ela e Bret.
Na cozinha, Laura foi mexer a panela de sopa e a convidada sentou-se perto da mesa. Vendo que ela tinha de esticar-se para apanhar uma grande tigela no armrio, Ginny levantou-se e ofereceu:
	Eu fao isso, Laura. Venha, sente-se um pouco  sugeriu, notando o rosto cansado e um pouco plido.
	 s uma tontura boba. No se preocupe, eu tenho essas coisas o tempo todo.
	Ento fique sentada e relaxe, enquanto eu termino o jantar. 
	Acho que vou aproveitar, sabe? Em duas semanas no terei mais tempo para sentar e por os ps para cima  riu, cruzando as mos sobre a barriga e respirando fundo.
Ginny cortou o po em fatias, espalhou manteiga sobre elas e colocou-as no forno. Quando virou-se, Laura fitou-a com curiosidade e perguntou:
	Como vo as coisas entre voc e Bret?
	Ainda no sei...
	Sam costuma dizer que Bret  o mais teimoso dos Calhoun.
Ele quer voc de volta, no ?
	Parece que sim...  sorriu encabulada.
	E o que voc quer?
Ela pensou durante alguns instantes antes de responder:
	Posso dizer o que eu no quero... sofrer, e magoar Bret outra vez.
	No inverno passado ele sofreu muito. Passou um dia inteiro aqui, sentado na sala, conversando com o irmo sobre o assunto.
Ginny abaixou a cabea para tentar esconder a culpa que sentia e, vendo que ela mantinha-se em silncio, Laura prosseguiu:
	Qualquer erro pode ser reparado... desde que os dois queiram.
	Esse  o grande problema  admitiu com lgrimas nos olhos.
Laura ficou em silncio por alguns segundos e depois contou:
	Sabe que Bret me pediu em casamento cinco minutos depois de me conhecer?
	No!
	Estava brincando,  claro, e s queria irritar Sam. Mas eu no fiquei suipresa quando soube que vocs dois iam se casar to depressa. Bret sempre soube exatamente o que quer.
E agora ele a queria. Desde a aventura na montanha e a conversa que haviam tido, Ginny j no se preocupava com o futuro e com o que aconteceria entre eles, mas ainda tinha muito medo de provocar sofrimento e dor para ambos.
Quando o po foi aquecido e a sopa ficou pronta, Ginny foi ver se Sam e Bret j haviam terminado. Os dois estavam fixando o ltimo pedao de papel de parede, e ela cumprimentou-os pelo resultado final.
Sam desceu correndo, ansioso para estar com a esposa, e Bret ps um brao sobre os ombros de Ginny, beijando-a delicadamente nos lbios. A demonstrao de ternura trouxe mais lgrimas aos seus olhos.
	O que houve?  Bret perguntou.  O que est sentindo?
	Acho que ... um pouco de inveja.
	Por causa do beb?
	Tambm, mas principalmente porque eles parecem feitos um para o outro, e so felizes o tempo todo.
	Tambm tiveram problemas no incio do casamento, mas conseguiram solucion-los e agora j esto juntos h mais de um ano.
	Apenas duas semanas mais que ns, se no...
	Se no tivesse cometido a loucura de pedir o divrcio.
Sentindo que a frgil trgua era ameaada, Ginny tentou desviar os olhos, mas ele segurou-a pelo queixo e no permitiu. Sorrindo, Bret repetiu exatamente o que Laura havia dito pouco antes:
	Enganos podem ser reparados. O que acha de comearmos esta noite? Talvez queira experimentar o banco do meu novo carro...
	Pare com isso!  ela censurou, fazendo-o acompanh-la pela escada.
Rindo, juntaram-se ao outro casal para o jantar. Estavam terminando de comer quando a sirene de incndio da cidade disparou e o telefone comeou a tocar. Laura levantou-se e foi buscar a jaqueta do marido, enquanto ele corria a apanhar as chaves do carro. Era bombeiro voluntrio, e sua presena era exigida naquele momento.
Ginny viu que Bret tambm pegava as chaves do carro e surpreendeu-se quando ele avisou:
	Vou com meu irmo. Mais tarde eu venho busc-la, est bem? Laura, tem uma cmera para me emprestar? Deixei a minha em casa, e gostaria de tirar algumas fotos para o jornal.
De repente Ginny percebeu que nada havia mudado, e que Bret ainda estava disposto a arriscar a vida por uma boa histria.
	Bret... no v  pediu com voz angustiada.
	E por que no?
	Porque  perigoso.
	Mas o meu irmo j est l fora  comentou, virando-se para Laura em busca de ajuda. Ela encolheu os ombros e saiu.
	Sam c bombeiro, e foi treinado para isso.
	Ginny. eu sei cuidar de mim mesmo.
	Como naquele tiroteio com os traficantes?
	Aquilo foi diferente.
	Para mim no h diferena nenhuma.
	Por favor, Ginny! Podemos falar sobre isso mais tarde?
	Eu no vou estar aqui mais tarde  anunciou com lgrimas nos olhos.
	Eu j devia ter imaginado  respondeu com expresso furiosa. Em seguida virou-se e saiu, batendo a porta com fora.
Nada havia mudado, e de repente Ginny percebeu que agora a situao a feria ainda mais, porque o amava mais que nunca.
Estava pensando nos sentimentos confusos que experimentava, quando Laura entrou na cozinha e encostou-se  pia, plida como uma folha de papel.
	Ginny...  chamou.
- Laura! O que foi? Est sentindo alguma coisa?  perguntou alarmada, esquecendo os prprios problemas.
	Eu... acho melhor irmos para o hospital. Estou sentindo as dores.

CAPTULO IX

Ginny suportou a amiga e a fez sentar-se. Laura I contraiu-se, sentindo uma nova pontada, e comentou:
	O beb s deve nascer daqui a duas semanas!
	Fique calma  aconselhou, tentando esconder o terror que a invadia. Dirigindo-se ao telefone perto da porta, ela perguntou:
 Qual  o intervalo entre as dores?
	Cinco minutos. Passei o dia todo com uma sensao de desconforto, mas no percebi que estava chegando a hora. Quem sabe da prxima vez?
	Vai querer uma prxima vez? Que coragem!
Laura sorriu, e em seguida emitiu um gemido angustiado.
	Fique calma  Ginny insistiu.  Vou cuidar de tudo. Seu mdico  o dr. John Clay, no ?
Laura afirmou com a cabea e Ginny discou o nmero que conhecia h anos. Depois de falar com o mdico, ligou para o hospital para avisar que Laura estava a caminho e telefonou para a brigada de incndio, pedindo que informassem Sam sobre os novos eventos.
Desligou, foi buscar o casaco e a mala de Laura, que estava preparada h dias, e praguejou em voz baixa contra os homens da famlia Calhoun. Sabia que o verdadeiro alvo de sua irritao era Bret, pois Sam teria de atender ao chamado de qualquer maneira. Mas Bret nem se preocupara em deixar o cano!
Nervosa, ajudou Laura a descer os degraus da varanda e acomodou-a no pequeno Thundcrbird. o segundo veculo da famlia. Sentou-se diante do volante, girou a chave na ignio e parou, assombrada com a quantidade de luzes no painel.
	Que maravilha!  murmurou.  Estamos na Disneylndia!
	Por favor, no me faa rir  Laura suplicou, amparando a barriga com as mos e gemendo de dor.
	Nunca dirigi uma coisa dessas!
Recuperando-se da contrao, Laura respirou fundo e indicou:
	 como qualquer outro carro. Sabe que eu provoquei um acidente no centro da cidade com essa porcaria?
	No, e espero que no decida me contar agora, ou vou ser obrigada a falar sobre o dia em que derrubei uma cama na cabea de Bret.
	Pelo amor de Deus, agora no!  e suspirou, antes de comentar:  Uma verdadeira Calhoun! Sabia que havia esperana para voc. Podemos ir, ou vai querer que o beb nasa aqui mesmo?
Empurrada pela necessidade, Ginny pisou no acelerador e partiu, enfrentando a chuva que caa com verdadeira fria. Fazendc um grande esforo para acalmar-se, diminuiu a velocidade e ado-tou um comportamento mais cauteloso ao percorrer as ruas molhadas e escorregadias, consciente de cada contrao de Laura.
Finalmente chegaram ao hospital e Ginny correu para o interior do prdio, onde pediu que uma das enfermeiras a ajudasse. Usandc uma cadeira de rodas, levaram Laura para dentro e perceberan que o espao entre as dores havia diminudo bastante.
	Isso est indo mais depressa do que eu esperava  Laura gemeu.
	Voc  uma mulher de sorte  sorriu a enfermeira.
Normalmente o primeiro parto  mais longo, mas esse beb parece estar ansioso para conhecer a mame.
Ginny abraou Laura, desejou boa sorte e garantiu que tude correria bem, beijando-a no rosto com carinho.
Sentindo-se como se houvesse acabado de percorrer cinquenta quilmetros correndo, deixou-se cair numa cadeira da sala de espera e secou o rosto c os cabelos com um punhado de lenos de papel que havia conseguido com a enfermeira. Nervosa, levantou-se e caminhou pela sala, incapaz de interessar-se pelas revistas que viu sobre a mesa. E como poderia, se no conseguia deixar de pensar em Laura... e em Bret?
Pelo menos Laura estava recebendo os cuidados de profissionais competentes e atenciosos, c era apenas mais uma a cumprir a misso suprema de todas as mulheres. Quanto a Bret, havia corrido rumo ao perigo como a maioria dos homens, deixando para trs a mulher que o amava.
Ginny respirou fundo e foi sentar-se novamente. Bret sequer sabia que o amava, e se dependesse dela, jamais saberia. Naquela noite havia chorado por ele pela ltima vez.
Sam chegou vinte minutos depois, e ainda no havia tirado a jaqueta de proteo. Ginny contou a ele o que havia acontecido e o viu correr para estar junto da esposa no momento mais importante de suas vidas. Quanto a Bret... nem sinal.
Ginny continuou esperando sozinha, andando pela sala e parando para sentar-se de vez em quando. Uma hora depois Sam apareceu na sala de espera e, com uma expresso de suprema felicidade, anunciou o nascimento do pequeno Travis, que receberia o nome do av paterno. Me e filho passavam bem.
	Sam, que maravilha! Parabns!  disse ela, abraando-o e compartilhando de sua alegria.
Minutos depois Bret entrou no hospital, coberto de fuligem e poeira, e abraou o irmo ao ser informado do nascimento do sobrinho.
V-los juntos a fez lembrar-se de que era apenas uma amiga, no uma parte daquela famlia e, em silncio, apanhou a bolsa e o casaco, preparando-se para partir. Estava pensando em despedir-se, quando ouviu Sam anunciar:
	Eu disse a enfermeira que os tios do beb gostariam de v-lo, e ela garantiu que o levaria at a janela do berrio. Mas no esperem muito, porque o pobrezinho  a cara do Mr. Magoo  e riu orgulhoso.
Sam voltou para perto de Laura enquanto Bret e Ginny dirigiam-se ao berrio. Conforme havia prometido, a enfermeira aproximou-se da janela com o pequeno Travis nos braos, e os dois puderam ver seu rostinho rosado emoldurado por fartos cabelos dourados. Ao ver a criana, Ginny esqueceu a raiva e o ressentimento que experimentara at pouco antes, sentindo-se invadida por um amor profundo e intenso.
Depois de alguns minutos a enfermeira voltou a colocar o beb no bero e Ginny afastou-se, pretendendo deixar um recado para Sam dizendo que havia levado seu carro, e que o devolveria na manh seguinte.
	Ele  lindo, no acha?  disse Bret, alcanando-a.
	Quem? O beb? Sim,  encantador. Cheguei a ter medo de que nascesse no caminho, mas felizmente conseguimos chegar a tempo. Acho que me preocupei por nada.
	Est admitindo que tem o hbito de preocupar-se inutilmente?
	Acho que est torcendo minhas palavras  respondeu, caminhando mais depressa pelo corredor silencioso. Parou na recepo, deixou o recado para Sam e em seguida dirigiu-se  porta, mas Bret alcanou-a antes que sasse.
	Ginny, precisamos conversar  e segurou-a pelo brao, obrigando-a a encr-lo.
	Ns j conversamos  ela afirmou, vendo as marcas deixadas pela luta contra o fogo e percebendo o quanto ele estivera perto do perigo.
HoiTorizada, sentiu que as lgrimas enchiam seus olhos e engoliu o n que formara-se em sua garganta antes de dizer:
	Eu pedi que no fosse at o local do incndio, mas voc no me ouviu.
	Sam tinha de vir para c, e eu era o nico que podia substitui-lo.
	Voc no sabia que ele teria de vir para o hospital quando saram de casa  e apontou um dedo acusador na direo dele. 
 Eu podia ter ido fazer a reportagem sobre o incndio, e voc tem mais trs reprteres e quatro fotgrafos no jornal. Mas decidiu ir pessoalmente, porque no consegue viver longe do perigo e das emoes fortes. Eu sempre soube que seria assim, e voc acabou de provar que eu estava certa. Webster no  o lugar certo para voc, Bret. Volte para a cidade grande.
	O problema no sou eu.  voc! Est procurando uma desculpa para me mandar embora, porque sabe que estou cada vez mais prximo de seu corao. Estou farto de fazer perguntas e no obter respostas, mas finalmente compreendi que  imatura demais para confiar em mim... ou nos seus sentimentos.
	Isso  ridculo! No vou ficar num local pblico ouvindo suas bobagens!  Nervosa, abriu a porta e saiu, encolhcndo-se ao ser atingida por uma rajada de vento frio e mido. A chuva gelada molhou seu rosto e a fez parar para apertar a jaqueta contra o peito. Apesar da proteo do agasalho, sentiu os arrepios que percorriam seu corpo e no soube dizer se eram de frio ou nervoso.
Mas Bret no estava disposto a deix-la fugir.
	Voc vai me ouvir, nem que eu tenha de arrast-la para o meio da praa. Ainda no terminamos nossa conversa, Ginny!
Isso ainda no est acabado...
	Est, sim, e h muito tempo!  explodiu, livrando-se dele e correndo sob a chuva gelada at o carro de Sam. Entrou, girou a chave na ignio e ficou parada, esperando que o motor acionasse o sistema de aquecimento e a salvasse de morrer congelada.
Quando finalmente sentiu que as mos voltavam a ter sensibili dade, olhou em volta e preparou-se para partir.
Bret estava em seu carro, com o motor ligado e as luzes acesas, olhando atravs da janela fechada. Sabia que ele estava esperando para segui-la at em casa, e a gratido misturou-se  raiva que sentia.
Com cuidado, Ginny dirigiu pelas ruas molhadas e escorregadias, consciente dos faris do carro de Bret refletidos em seu espelho retrovisor. Naquele momento, tudo o que queria era atirar-se em sua cama e envolver-se nos cobertores quentes e macios, pois l poderia tentar entender tudo o que havia acontecido nas ltimas horas, incluindo a descoberta do amor que ainda sentia pelo ex-marido.
Sabia que no podia mais continuar com aquela brincadeira de namoro, agora que admitira a fora e a intensidade de seus sentimentos, mas s na tranquilidade de sua casa seria capaz de pensar numa soluo para a encrenca cm que se metera.
Depois de alguns minutos estacionou o carro na garagem e conseguiu abrir a porta da cozinha sem ser importunada. Entrou, acionou o interruptor de luz... e nada aconteceu. Confusa e irritada, atravessou a cozinha no escuro e abriu a porta da geladeira, verificando que seu interior permanecia imerso na escurido. A chuva devia ter causado algum problema no sistema de fornecimento de energia eltrica. Furiosa, bateu a porta da geladeira com violncia.
 Tsh, tsh, tsh  reprovou Bret, parado na soleira.  Isso no  maneira de reagir a uma pequena inconvenincia. Havia retirado a lanterna do porta-luvas e iluminava o ambiente com sua luz plida, a mesma que haviam utilizado na cabana dias antes. Notando que a luz da garagem estava acesa, comentou:  Deve haver energia no apartamento, pois os circuitos so separados. Por que no vem comigo e espera que a companhia eltrica resolva o problema?
No, obrigada  recusou, apalpando o mvel para encontrar a gaveta onde guardava velas, fsforos e at uma pequena lanterna.
Mais confiante por poder iluminar o prprio caminho, prosseguiu:
 Estou vendo o suficiente para acender a lareira, e posso dormir na sala esta noite, diante do fogo.
	Droga, Ginny! Ser que no pode deixar de ser teimosa e egosta pelo menos uma vez?
	Egosta?
	Exatamente! J parou para pensar no que estou sentindo?
Tenho algumas coisas a dizer, e preciso que me escute com ateno, sem expressar suas opinies preconceituosas e indignadas!
 Aproximando-se, segurou-a pelo brao.  Voc vai para o apartamento comigo, ns vamos nos sentar e deixar a tempestade passar... todas elas.
Sob a luz da lanterna, viu que ele tinha uma expresso determinada. Abriu a boca para protestar, mas Bret pousou dois dedos sobre seus lbios.
 No diga mais nada por enquanto, porque j aturei tudo o que podia de voc. Posso no ser um bombeiro de verdade, mas sei como carregar uma pessoa sobre os ombros sem perder o equilbrio, e  exatamente o que vou fazer se no comear a se mexer imediatamente!
Qualquer mulher com um mnimo de bom senso conhece o valor de um recuo estratgico, e Ginny sempre havia sentido orgulho de seu bom senso. De cabea erguida, saiu e dirigiu-se  escada que levava ao apartamento, consciente de Bret s suas costas.
No ltimo degrau ele a ultrapassou e abriu a porta, esperando que entrasse, e o calor gerado pelo aquecimento central a envolveu de imediato.
Bret acendeu a luz e convidou, apontando para os painis onde os animais pareciam observadores atentos:
	Entre e misture-se  multido. Felizmente essas coisas no ocupam muito espao.
Escondendo o nervoso e os temores, Ginny entrou e tirou a jaqueta, sentando-se na cadeira que considerava mais confortvel.
Bret tambm despiu o agasalho e, olhando para a fuligem que depositara-se em seu suter, comunicou:
Vou lavar isso aqui. Por que no faz um caf para ns?
Grata por ter algo com que ocupar-se, esperou que ele desaparecesse atrs da porta do pequeno banheiro e foi para a cozinha, onde dedicou-se ao caf. Havia terminado de co-lo quando Bret apareceu. Com um sorriso, aceitou a xcara que ela oferecia e ambos voltaram para a sala, onde ela acomodou-se novamente na cadeira que mais apreciava.
	Sente-se aqui  ele indicou, apontando o espao a seu lado no sof.
Nervosa, fez como ele dizia, bebendo um pouco da bebida quente e aromtica para tentar acalmar-se.
Depois de alguns instantes de silncio ele depositou a xcara sobre a mesa, onde apoiou os ps, e encarou-a:
	Durante quanto tempo sentiu medo de que eu morresse?
	O qu? Como...?
	Finalmente consegui compreender tudo. Voc teve medo de uma srie de coisas desde que nos conhecemos, e agora eu entendi que seu maior receio era de que eu morresse assassinado e a deixasse sozinha, como sua me.
	Essa  a coisa mais ridcula que j ouvi em toda minha vida!
	Ento negue.  Depois de alguns momentos de silncio, ele insistiu:  Ginny, olhe para mim e negue o que eu acabei de dizer!
Ela conseguiu encar-lo, mas foi incapaz de oferecer qualquer argumento contra o que acabara de ouvir, e os dois sabiam o motivo. Com mos trmulas, Ginny inclinou-se e deixou a xcara sobre a mesa, ao lado da dele, e depois recostou-se no sof, cruzando os dedos sobre o colo.
Talvez fosse hora de falar com franqueza. De certa forma, seria um alvio expressar com clareza todos os receios que nunca fora capaz de manifestar quando ainda eram casados.
Respirando fundo, ela admitiu:
	Acho que tive a primeira crise de pavor assim que voltamos
da lua-de-mel.
- Pavor?  e pousou a mo sobre seus ombros, tentando oferecer um pouco de conforto e segurana.
	Exatamente. Eu era incrivelmente ingnua para a minha idade c acreditava que seramos capazes de enfrentar qualquer tipo de problema, mas quando percebi o quanto voc era bem sucedido em sua carreira, a mesma que eu havia escolhido e que mal comeara, comecei a me sentir inadequada. Sempre tive boas notas no curso de jornalismo e era a quarta gerao da minha famlia a seguir a mesma profisso, e por isso pensava que seria muito fcil. Mas no foi. Voc passava dias inteiros correndo atrs de novas histrias, e eu comecei a me sentir um fracasso tambm como mulher, porque achava que, se fosse uma boa esposa, meu marido passaria mais tempo em casa.
 Meu Deus, de onde tirou essa ideia? Eu fui muito egosta. Pensei que poderia ter todos os benefcios de um homem casado sem abrir mo das vantagens da vida de solteiro. Sabia que estava magoada e insatisfeita, mas voc no dizia nada e eu no conseguia imaginar os motivos de sua tristeza. Quase morri quando cheguei em casa e encontrei aquele bilhete de despedida.
Pensando no quanto devia t-lo magoado, ela confessou:  Foi uma sada covarde. Eu ficava apavorada cada vez que voc saa, e tinha certeza de que um dia algum bateria na porta do nosso apartamento para dizer que meu marido havia sido assassinado. Quando voc levou aquele tiro, percebi que no podia mais suportar. Por alguma razo, no conseguia tirar da cabea o dia da morte de minha me e...
 Ginny, eu tambm perdi meu pai. Pensei que isso serviria para nos unir ainda mais, e o que aconteceu foi exatamente o contrrio. Por que no ficou e disse o que estava sentindo?
Ela engoliu o n que formara-se em sua garganta e fitou-o com expresso suplicante. O momento que tanto temera havia chegado, e agora no havia mais como evit-lo ou adi-lo.
 Porque eu era um fracasso como esposa, como profissional e... enfim, eu era um completo desastre. Portanto, achei que o melhor seria voltar para casa, para perto de meu pai e minha irm. Cuidar deles era a nica coisa que eu fazia com sucesso e... bem, fiz o que pude para matar o amor que sentia por voc.
E conseguiu?
Disposta a dizer toda a verdade, fitou-o nos olhos e respondeu: !
No. Nunca deixei de am-lo. Por isso tentei me manter afastada desde que chegou a Webster.
Ele sorriu:
 Ginny, amei voc desde que a vi no casamento de Sam, e sei que vou am-la at morrer.
Ela fechou os olhos e sentiu que lgrimas quentes corriam por seu rosto. No havia mais necessidade de palavras, pois agora estavam abraados e a paixo que sentiam era evidente naquele abrao e nos beijos ansiosos, carregados da necessidade que haviam tentando negar durante meses.
	Voc nunca foi um fracasso  ele sussurrou com voz terna.  Eu  que fui muito tolo e no percebi a mulher maravilhosa e perfeita que tinha a meu lado. S comecei a entender tudo naquela noite em que fomos  reunio na escola.
	Entender o qu?  ela perguntou com um sorriso feliz, sentindo-se boba por ter evitado aquela conversa franca por tanto tempo.
	Quando voc me contou aquela histria sobre ter ido para o colgio aos doze anos, entendi como o fracasso a afetava. Sentiu-se culpada por no ter sido capaz de enfrentar a situao, e em nenhum momento pensou que era s uma criana que acabara de perder a me, pois s conseguia enxergar as expectativas das outras pessoas.
	Acho que est certo. Eu nunca pensei sob esse ponto de vista.
	Voc ficou aborrecida por no ter conseguido ser to boa editora quanto seu pai, e considerou minha chegada como outro fracasso.
	E verdade.
	Nunca pensou que, apesar de no ser uma boa editora,  uma excelente reprter e uma redatora criativa, de estilo marcante e prprio, e ainda no percebeu que est fazendo um trabalho maravilhoso, de grande utilidade para a comunidade local.
Surpresa, Ginny percebeu que sentia-se feliz por ter algum com quem dividir seus sentimentos mais ntimos e verdadeiros. Sempre imaginara o casamento como uma comunho perfeita de ideias e emoes, e agora compreendia que sentira falta de franqueza e honestidade durante o tempo que passara ao lado do
marido.
Feliz por terem finalmente conseguido conquistar a cumplicidade que jamais haviam tido, ela o abraou e beijou-o delicadamente nos lbios.
Bret retribuiu o abrao e disse:
	Eu amo voc.
Mantendo os olhos fechados e a cabea recostada em seu peito, sentindo-se realmente em paz pela primeira vez em muitos meses, ela sussurrou:
	Tambm amo voc  e recuou um pouco, abrindo os olhos para fit-lo com um sorriso.  Isso explica por que veio a Webster.
	Eu teria vindo nem que fosse s para lev-la de volta.
	No sabe como isso me faz feliz.
	Tambm estou feliz. Mas e agora? Depois das confisses e declaraes, qual  o prximo passo?
Com os olhos azuis cheios de promessas, ela riu e perguntou:
	Que tal sua cama?
Ele tambm riu, abraando-a e respirando fundo antes de dizer:
	No sabe h quanto tempo sonho com um convite desses, meu bem. Mas infelizmente no posso aceitar.
	No pode?

	No fique to decepcionada. Sempre pensei em mim como seu marido, desde o dia do nosso casamento, mas finalmente percebi que fui um fracasso. No soube faz-la feliz e deixei voc fugir, mas j decidi que agora ser diferente.
	Diferente como?  ela quis saber, incapaz de esconder o desapontamento.
	Vamos ter uma linda cerimnia de casamento numa igreja cheia de convidados, exatamente como seu pai sempre quis. Sua irm ser sua dama de honra, e meu irmo Will ser meu pajem.
	Pelo amor de Deus, no diga que Travis vai carregar as alianas, ou teremos de esperar no mnimo cinco anos!
Ele riu:
	Nem pense nisso! Podemos acertar o resto dos detalhes depois, est bem? Por que no dorme aqui comigo? Quero abraar voc como naquela noite, na cabana.
	Voc  maluco, Bret.
	Por qu? Prefere passar a noite sozinha naquela casa imensa e gelada, no escuro?
	E claro que no. Mas acho que est esperando muito de mim, sabe?
	S estou pedindo que me deixe abra-la e que passe a noite comigo. O resto fica para depois do casamento. Sabe de uma coisa? No entendo como uma mulher divorciada e experiente como voc ainda consegue ficar vermelha com tanta facilidade. 
 e beijou-a na testa.  Se acha que no pode confiar em si mesma, fique com a cama. Eu durmo aqui no sof.
Sem esperar pela resposta, Bret levantou-se e foi at o armrio, de onde tirou uma camiseta. Com um sorriso divertido, anunciou:
	Sua nglig, madame.
Rindo, Ginny apanhou a camiseta da mo dele e foi para o banheiro. Fechou a porta, olhou-se no espelho e surpreendeu-se ao descobrir que os olhos brilhavam como nunca. Agora estava feliz, porque finalmente tinha tudo o que sempre desejara: o amor de Bret, e a certeza de que ele sempre estaria a seu lado. Desta vez tudo seria perfeito e maravilhoso.
Cantarolando uma melodia romntica, despiu-se e enfiou a camiseta pela cabea, notando que ela mal cobria a metade superior de suas coxas. Parou dian.te do espelho e examinou-se, pensando na possibilidade de Bret ser incapaz de manter a resoluo que tomara.
Quando saiu do banheiro, ele havia terminado de arrumar o sof com um lenol e um cobertor. Virou-se e observou-a com um brilho intenso nos olhos, mas no a tocou.
	Sabe que eu sempre achei suas pernas espetaculares? comentou.  Se naquele dia em que nos conhecemos voc esivesse de saia curta, eu teria praticado um sequestro!
	Eu no teria tentando resistir.
Com o desejo estampado nos olhos e a voz carregada, Bret censurou-a:
	Pare de tentar um pobre homem fraco e trate de ir para a cama! Teremos muito em que pensar amanh cedo, e quero terminar os planos do nosso casamento o mais depressa possvel.
No acredito em noivados longos, sabe?
Ginny fez como ele dizia e sentiu o aroma de sua loo de barba nos lenis. Dormiria bem sabendo que ele estava por perto, e o sabor do beijo de boa noite ficaria cm seus lbios at a manh seguinte.
Embora a mente estivesse cheia e agitada, adormeceu em seguida.
Ginny abriu os olhos para a luz brilhante do sol e apalpou o travesseiro a seu lado, como fizera tantas manhs, mas desta vez no fora despertada por um sonho triste ou pela conscincia sbita da ausncia de Bret. Sonolenta, compreendeu que o telefone tocava com insistncia. Olhou em volta, mas no viu Bret em parte alguma e, apesar da ateno, no ouviu o rudo do chuveiro. Finalmente apanhou o fone e murmurou:
	Al?
	Bret?  perguntou a voz masculina do outro lado da linha.
	No, ele no est.
	Mas aposto que j esteve.
O som familiar daquela risada terminou de despert-la.
	Frank Brevard? E voc?  perguntou, sentando-se na cama e sentindo um arrepio, apesar do calor do quarto.
	Exatamente, meu bem. Ento Bret conseguiu cumprir a misso! Esto juntos novamente. Bem, j era hora, porque estou cansado de esperar e preciso dele aqui. Tenho uma nova matria para ele e gostaria de saber quando pretendem voltar.

CAPTULO X

Ento foi tudo uma encenao!  ela /exclamou assim que o viu passando pela porta. Estava ajoelhada no meio da cama, o cobertor envolvendo o coipo trmulo.
Bret carregava um pacote de rosquinhas da padaria Merrick e tinha dois jornais dobrados sob o brao.
Prevenido pelo tom de acusao e pela raiva que viu nos olhos dela, foi deixar tudo sobre a mesa da cozinha antes de perguntar:
Do que est falando?
Voc nunca teve inteno de morar em Webster  ela afirmou, sem tentar esconder a dor que a dilacerava.  Veio para c somente para tentar me levar de volta. Por qu? Por que eu decidi acabar com o casamento e feri seu orgulho?
Mais irritada que nunca, viu que Bret despia a jaqueta e a pendurava nas costas de uma cadeira com movimentos lentos, como se tentasse ganhar tempo. Depois ele enrolou as mangas da camisa de flanela, respirou fundo e respondeu:
Por acaso teve febre durante a noite? Est delirando? Pensei que j houvssemos acertado tudo antes de irmos dormir. Teve pesadelos?
Tive, mas felizmente estou despertando!  e afastou as cobertas, levantando-se em seguida. O piso de madeira era frio sob seus ps descalos, mas ela caminhou decidida e parou diante dele:  Frank Brevard acabou de telefonar.
Subitamente tenso, ele perguntou:
 mesmo? E o que ele disse?
Que est feliz por termos nos acertado e que sua prxima matria j est preparada. Por que no foi honesto comigo?
Mas eu nunca menti para voc!
	Bem, tambm no foi exatamente um modelo de sinceridade.
Nunca esteve interessado em ser editor de um jornal insignificante de uma pequena cidade no fim do mundo. Admita, Bret! Quando saiu de Memphis, no tinha a menor inteno de fixar-se em Webster!
	Eu admito.
As palavras firmes e diretas a surpreenderam. Por alguma razo, esperava que ele negasse, que tentasse defender-se das acusaes, e agora no sabia como reagir. Fitou-o por alguns instantes, tentando interpretar a expresso que via em seu rosto, e finalmente virou-se e disse:
	J entendi.
Bret segurou-a pelo brao e a fez encar-lo novamente. Ginny tentou escapar, mas ele no permitiu:
	Quando eu aceitei o emprego no jornal de Hugh, eu ainda estava furioso por voc ter me deixado. Estava determinado a arrancar a verdade sobre sua partida nem que fosse a fora, e naquele momento no me preocupei com o fato de estar aceitando o cargo de editor num jornal pequeno e insignificante, como voc diz.
	Agora j sabe porque eu parti e nada mais o impede de ir embora  disse, sentindo-se humilhada e trada, arrependendo-se por ter confiado nele e revelado seus temores mais ntimos. Fora uma tola, e chegara a acreditar que ele a amava. Agora sabia que tudo no passara de uma encenao porque, se realmente a amasse,
no teria mentido.
	Eu mudei de ideia  disse Bret, erguendo a voz para chamar sua ateno.  Sabia que precisava de uma mudana, mas no tinha certeza de como poderia consegui-la. Assim que cheguei aqui, percebi que gostava de estar perto do meu irmo c fiquei encantado com a atmosfera calma da cidade. Tambm gostei de trabalhar com voc, e finalmente conclui que havia encontrado o que tanto procurava.
	Que maravilha!  ela exclamou com ironia.
	Pare com isso. Ginny!  gritou irritado, deslizando a mo pelos cabelos.  Droga, nem sei por que estou perdendo tempo dizendo todas essas coisas. Voc j tirou suas concluses, e provavelmente decidiu que vai fugir novamente.
Se havia uma coisa que Ginny havia aprendido nos ltimos dias era que fugir dos problemas no contribua em nada para solucion-los. Seu maior problema havia sido as dvidas que sempre tivera sobre si mesma, e levaria essas dvidas para onde quer que fosse, por mais que corresse de tudo e todos.
	E por que eu deveria fugir?  ela perguntou.  Voc vai embora, no vai? Vai voltar para Memphis, para o seu trabalho e para todas aquelas pessoas que o admiram tanto!
	J tentou descobrir por que seu pai me contratou? Por que ele me escolheu entre todos os jornalistas competentes e qualificados do pas?
	Porque tambm foi enganado, e acreditou que voc queria realmente construir uma vida nova em Webster para estar perto da sua famlia.
	Voc  minha famlia, e Hugh sempre soube disso! Ele me contratou porque queria nos ver juntos novamente.
	No!  At aquele momento haviam conversado olhando-se fixamente, mas de repente Ginny no pde mais suportar o confronto e afastou-se.  Papai sabia o quanto voc havia me magoado no passado.
	Ele estava interessado em nos aproximar. Hugh telefonou para mim, disse que pretendia aposentar-se e me ofereceu o cargo de editor do Herald.
	Eu no acredito em uma palavra do que est dizendo!
	Mas  verdade. Ele nem se preocupou em entrevistar outros candidatos.
A firmeza na voz dele a fez perceber que estava dizendo a verdade. No entanto, incapaz de acreditar que o pai havia mentido de maneira to descarada, Ginny insistiu:
	Isso no pode ser verdade.
A expresso dura de Bret foi substituda por um sorriso carinhoso e sua voz tornou-se doce e melodiosa:
	 verdade, Ginny. E Hugh disse que se eu a magoasse de novo, ele seria capaz de me amarrar num cavalo e me arrastar pela cidade inteira. Quando cheguei e assumi o cargo de editor, percebi que no havia realmente ferido seus sentimentos, ou voc teria lutado com mais vontade contra a minha contratao.
	O que est querendo dizer?
 simples. Sc tivesse realmente insistido em me manter afastado, se houvesse se negado a trabalhar comigo, Hugh no teria me contratado  e deu dois passos, aproximando-se lentamente dela.  Por que no tentou evitar que eu ficasse em Webster, Ginny? Por que me queria, mas no tinha coragem de admitir a verdade nem para voc mesma? Ficou feliz por eu ter vindo novamente atrs de voc, poupando-a do trabalho de reconhecer seu erro e me pedir para voltar?
	Eu? Pedir para voltar?  explodiu furiosa.  Voc enlouqueceu! Eu jamais pediria nada parecido! E voc mesmo admitiu que veio para c s para tentar me reconquistar!
	E por isso est to ofendida? Eu podia ter encontrado um emprego em qualquer outro lugar do mundo, mas era aqui que eu queria estar. A pergunta ... o que voc e seu pai queriam?
Cravando os olhos no cho e afastando os cabelos que caam sobre seu rosto, ela disse em voz baixa:
	No posso responder por meu pai.
	 claro que no! No pode falar nem por voc mesma!
Por que no se pergunta qual  o motivo de todo esse aborrecimento? Pense um pouco, meu bem. Aproveite para refletir enquanto toma seu caf e come as rosquinhas que eu trouxe. Mas, por favor, v vestir-se primeiro.  difcil discutir com uma mulher seminua.
	Vou fazer melhor que isso. Vou para casa e telefonarei imediatamente para meu pai!
	Como quiser  e encolheu os ombros, dedicando-se a arrumar as rosquinhas num prato.  Pode telefonar daqui, se preferir.
Ginny ignorou a sugesto, recolhendo as roupas que deixara dobradas sobre a cadeira e dirigindo-se ao banheiro. Vestiu-se depressa, e quando saiu o caf j estava pronto, perfumando todo o apartamento com seu aroma convidativo.
	Tem certeza de que no quer ficar?  Bret perguntou, mostrando a rosquinha que comia com prazer.
	No, obrigada  e abriu a porta.
Havia descido trs degraus quando ouviu a voz dele s suas costas:
	Aproveite o tempo para pensar em tudo que a incomoda.
Descubra por que seu pai decidiu me contratar e depois pergunte a voc mesma por que no tentou impedir que eu ficasse. E depois tente saber por que est reagindo de maneira to exagerada
ao telefonema de Frank. Lembre-se, foi ele quem disse que tinha uma matria preparada para mim. Eu no disse que estava disposto a aceitar. Est com medo? Por acaso percebeu que est pronta para me aceitar como sou? Pense bem, Ginny, porque, se nos casarmos, desta vez ser para sempre. No vou permitir outra fuga!
Ela fitou-o com expresso furiosa e, sem responder, correu para sua casa. De certa forma, Bret estava certo. Precisava mesmo aproveitar os momentos de solido para pensar em tudo que havia acontecido. Passara a ltima semana ao lado dele, e agora precisava de um pouco de isolamento para compreender os prprios sentimentos.
Aproximou-se do telefone e decidiu que no faria a chamada, pois aquele era o tipo de assunto que devia ser discutido pessoalmente. Rpida, foi at o quarto e mudou de roupa, vestindo uma velha cala jeans e um suter quente e confortvel. Estava tirando o carro da garagem quando viu que Bret a observava do alto da escada, na porta do apartamento, mas seguiu em frente.
Uma hora depois Ginny entrava na trilha de terra que levava  cabana alugada por Hugh. A estrada havia piorado muito depois das chuvas da ltima semana, e ela precisou concentrar-se e tomar cuidado redobrado para evitar que o carro atolasse na espessa camada de lama. Quando passou pelo local onde passara a noite com Bret, manteve os olhos cravados na trilha, sem olhar para a cabana onde seus sonhos haviam sido novamente acalentados inutilmente.
A cabana de Hugh parecia aconchegante em meio  neblina da manh, e uma espiral de fumaa saa pela chamin que ficava sobre o fogo. Ele ouviu o barulho do motor do automvel e foi esper-la na varanda, no alto da escada.
	Ol, Ginny! No esperava v-la to depressa! Algum problema?  perguntou, notando a expresso contrariada no rosto da filha.
Ela bateu a porta do carro, aproximou-se com passos lentos e parou diante dele:
	Papai, quero saber por que contratou Bret para o jornal.
Ele havia aberto os braos para abra-la, mas retrocedeu espantado e fitou-a com ar assustado:
	Outra vez esse assunto? Pensei que j houvssemos discutido todos os dctahcs.
	Voc o contratou para tentar nos aproximar novamente?
Escute, meu bem, por que no entramos e conversamos perto do fogo? Est frio aqui fora.
Hugh abriu a porta e segurou-a para que ela entrasse. Determinada, Ginny parou no meio da cozinha, encarou-o e insistiu:
	E ento?  verdade?
Hugh respirou fundo, torceu as mos com ansiedade e finalmente admitiu:
	Muito bem,  verdade. Eu contratei Bret porque no suportava mais ver minha filha infeliz, chorando pelos cantos da casa. Sabia que voc precisava dele.
Sentindo uma tontura sbita, Ginny deixou-se cair numa das cadeiras ao lado da mesa e apoiou a testa na mo.
	Papai, eu no acredito  gemeu.  Voc nem gostava dele quando nos casamos!
	Espere um minuto, mocinha! Eu nunca disse que no gostava de Bret. S achava que estavam sendo precipitados e que podiam esperar mais um pouco para se casarem. Quando voc voltou para casa, percebi que ainda o amava, apesar de todas aquelas histrias malucas que contava a si mesma, mas sabia que minha filha era teimosa demais para voltar e tentar resolver tudo de maneira franca e civilizada. Contrat-lo foi a nica maneira que encontrei de reunir vocs dois e forar uma conversa. Sabe que fiquei surpreso por Bret ter ouvido minha proposta?
	Ele tinha bons motivos para ouvi-lo.
	E dai? O que h de errado nisso?  perguntou Hugh, sentando-se perto dela e segurando as mos da filha entre as suas.  Qual  o problema de ter um homem apaixonado a ponto de abandonar um excelente emprego s para vir atrs de voc?
	Nenhum... eu acho. S no gosto de ser manipulada como fui. Por ele... e por voc  completou com um olhar de acusao.
	Foi por uma boa causa, querida, e voc sabe disso.
	No estava tendo uma recada, estava?
	No  admitiu envergonhado.  Consegui me recuperar completamentc da pneumonia h meses, mas sabia que no seria capaz de convenc-la a fazer o que eu queria sem oferecer um bom argumento. Por isso fingi que estava doente.
	Eu devia ter imaginado, especialmente quando se recusou a marcar uma consulta com o dr. Clay.  Apesar da raiva que sentia por ter sido enganada, no pde conter a curiosidade e perguntou:  Como conseguiu fingir os ataques de tosse com tanta perfeio? Seu rosto ficava vermelho, congestionado, e a respirao...  e parou, vendo que o pai ria.  Qual  a graa?
	Ei vi Jimmy Blaincs fazer isso quando tentava convencer Maggie de que estava doente demais para ir  escola. Foi ele quem me ensinou como imitar um verdadeiro ataque de tosse.
 Jimmy Blaines era o filho da vizinha.  O nico problema  que ele continua exigindo dinheiro para no dizer a verdade a ningum.
	Meu Deus! Um chantagista de dez anos de idade?
	Receio que sim.
Ginny estava preparando-se para a pergunta seguinte, quando ouviu um carro aproximando-se. Reconhecendo o som do motor, no precisou sequer levantar-se para saber que era o automvel de Bret.
	No sei por que me dei ao trabalho de vir para c  Hugh reclamou.  Devia ter alugado uma casa na praa de Webster, bem no centro da cidade.
	Devia ter sido honesto comigo  Ginny censurou com tom mais calmo, vendo que ele levantava-se e ia abrir a porta.
Bret entrou, fitou-a e quis saber:
	E ento? J conseguiu todas as respostas que queria?
	Ainda no  ela respondeu, notando que comeava a sentir-se um pouco melhor.  Papai estava justamente confessando que fingiu aqueles ataques de tosse para me obrigar a concordar com a ideia de contratar voc para o jornal.
	Eu j sabia disso  Bret declarou, tirando a jaqueta e olhando em volta.  Tem um caf quente para me oferecer, Hugh? Minha refeio matinal foi interrompida, porque eu tive de seguir minha noiva. Ela estava um pouco nervosa, e eu tive medo de que enfiasse o carro num atoleiro ou tivesse problemas com o motor. Ultimamente as mangueiras dos radiadores no tem tido nenhuma resistncia, especialmente nesta regio.
Hugh virou-se depressa e foi ate o fogo, onde havia deixado o bule de caf. Sem encar-los, comentou:
	 mesmo?
	No sabe nada sobre isso, sabe?
Ginny ergueu o corpo na cadeira, olhou para o pai com olhos arregalados c gemeu:
	No... Voc no seria capaz...
Hugh encolheu os ombros:
	Na poca me pareceu uma boa ideia. Como eu podia imaginar que ia trancar as chaves no carro e congelar sob a tempestade antes de encontrar um lugar para passar a noite?
	Ento era isso que estava fazendo enquanto ns arrumvamos os mantimentos! Aquilo que tinha nas mos no era barro!
Era graxa!  ela acusou.
	Est bem, est bem! Admito que cortei a mangueira do radiador para que tivessem de parar alguns metros abaixo, na estrada, mas s fiz isso porque queria obrig-los a alguns momentos de solido. Sabia que tinham muito a conversar, e achei que s precisavam de uma boa oportunidade. Por isso decidi passar um tempo aqui. Pensei que Bret aproveitaria o campo livre para reconquist-la.
	Voc est falando como se eu fosse um boneco de pano sem vontade!
	Desculpe, filha, mas foi tudo por uma boa causa. E ento?
	E ento o qu, papai?
	Funcionou?
	No exatamente como voc planejava  Bret interferiu, bebendo um pouco do caf forte e quente. Em seguida fitou Ginny com um brilho divertido nos olhos e completou:  Mas nos d um pouco mais de tempo^ e talvez tenhamos melhores notcias.
Piscando para o editor do Herald, Hugh levantou-se e informou:
	Est na hora da minha caminhada diria.
- Nem pense nisso, papai! Voc j nos criou problemas demais!
	Calma, querida. Eu s quero caminhar  prometeu, vestindo a jaqueta.  No vou mexer nos carros. De agora em diante, acho que vocs dois podem buscar a soluo para seus problemas sem a minha ajuda.
	Obrigada pelo voto de confiana  respondeu ela com sarcasmo, antes que o pai sasse e batesse a porta.
Por alguns segundos a cabana foi invadida por um silncio pesado e ansioso, quebrado apenas pelo crepitar do fogo no fogo a lenha e pelo tique-taque do relgio de parede. Finalmente Bret; limpou a garganta, como se quisesse chamar a ateno dela.
	E ento?  perguntou.  Onde havamos parado?
	No entendi...
	Voc estava fazendo uma lista de reclamaes a meu respeito. Em que item havamos parado?
Colocado dessa forma, era como se ela estivesse sendo tola e infantil. E talvez estivesse... Bret estava absolutamente certo quando disse que ela sentia medo, e havia uma pequena possibilidade dele estar certo sobre outras coisas.
Enterrando a cabea entre as mos, ela respondeu em voz baixa:
	Eu no sei...
	Ginny, por favor, acredite em mim! Eu nunca disse a Frank que pretendia voltar. Ele estava apenas tentando saber se eu havia mudado de ideia, como tem feito desde que recebi o prmio McKellar. Mas eu no quero mais voltar para Memphis. Prefiro ficar aqui, em Webster. Gostei de ser meu prprio chefe e... bem, na verdade, seu pai j falou sobre a possibilidade de vender o Herald para mim.
Ginny sabia que devia protestar, mostrar-se ofendida e magoada, mas haviam acontecido tantas coisas nas ltimas doze horas que sentia-se incapaz de preocupar-se com algo to pequeno quanto o jornal da famlia.
De qualquer forma, Bret percebeu alguma coisa em sua expresso e corrigiu-se:
	Talvez eu devesse dizer... para ns  e levantou-se, deixando a xcara vazia sobre a mesa e aproximando-se dela.  O que acha disso? Vamos nos casar, administrar o jornal e criar nossos filhos.
Ginny no respondeu de imediato. Fingiu ajeitar as mangas do suter, alisou os cabelos com os dedos e depois sussurrou:
	E se o casamento fracassar novamente?
Bret segurou-a pelos braos e a fez levantar-se:
	No vai fracassar  afirmou com segurana.  Vamos ter problemas como qualquer outro casal, mas desta vez seremos capazes de resolve-los de maneira adulta e sincera. Voc j viu como Sam e Laura vivem. Acha que eles nunca discutiram?  claro que sim! Tiveram desavenas e muitas diferenas, mas sempre conversaram sobre elas. E conosco ser da mesma forma.
Alem do mais, o que mais pode nos acontecer?
Ela sorriu, compreendendo o quanto j haviam superado. Bret tambm riu e disse:
	Vamos reformular a frase. O que mais pode acontecer, desde que seu pai no decida nos ajudar?  e assumindo uma expresso mais sria, prosseguiu:  Eu abandonei o emprego para vir atrs da minha esposa, e o que ela fez para retribuir?
Conseguiu me atirar dentro de um tanque cheio de gua gelada, trancou a chave dentro do meu carro numa estrada deserta sob uma tempestade infernal, quebrou uma cama na minha cabea... O que mais tenho de suportar para provar que amo voc?
0 qu? De repente todas as preocupaes desapareceram. Agora era uma mulher diferente daquela com quem ele se casara, um ano antes, e Bret tambm havia mudado muito.
Com os olhos cheios de esperana, Ginny fitou o rosto ansioso do homem que amava e disse, atirando-se em seus braos:
	Nada. No precisa fazer mais nada.
Aliviado e feliz, Bret beijou-a rapidamente e confessou:
	H mais uma coisa que eu quero perguntar.
	O que ?
	Ser que desta vez vai concordar em aceitar meu nome?
Isso me deixaria muito feliz. No precisa nem tirar o nome do seu pai. Basta acrescentar o meu.
	Como? McCoy-Calhoun? Calhoun-McCoy? No, acho que no.  um nome imenso. Laura disse que eu era uma verdadeira Calhoun, e acho que j  hora de assumir minha nova identidade.
Ginny Calhoun ficaria perfeito.
	Como quiser, meu amor  ele sorriu.  Desde que seja minha esposa novamente e nunca mais pense em fugir de mim.

EPLOGO
Realizar a cerimnia de casamento no ..Natal foi uma ideia maravilhosa, Ginny -- disse Dris, ajeitando o vu de tule que completava o vestido de noiva. O vu havia sido preso  cabea por uma graciosa tiara de cetim rebordado com pedrinhas que imitavam brilhantes, e as flores minsculas que cobriam os cabelos de Ginny criavam um ar romntico e encantador.
No sei como conseguiu preparar tudo em menos de dois meses  disse Carrie.
	Bret no queria esperar muito tempo  Ginny respondeu, aproximando-se do espelho e observando o resultado final com um sorriso satisfeito.  Sabe de uma coisa, Dris? Quando pedi a voc que fizesse meu vestido, tive uma das melhores ideias de toda minha vida.
Apesar de estar se casando com o mesmo homem, aquele era um segundo casamento e, por isso, Ginny decidira seguir a tradio e optara por um vestido que tivesse detalhes coloridos, evitando o branco imaculado. Dris criara o modelo a partir de sedapeaw de soie no tom de azul mais plido que se pode imaginar, cobriu a saia ampla com rendas c prolas minsculas, e completou com uma cauda discreta cujo bordado acompanhava o da saia.
O corpo era justo, com um decote simples que valorizava os ombros bem feitos e o pescoo delicado da noiva, e as mangas bufantes haviam sido feitas com a mesma renda usada na saia. 0 buque, ainda guardado na caixa da floricultura, era de rosas brancas e orqudeas azuis.
	Se eu tivesse uma filha, teria gostado de fazer seu vestido de casamento  Dris confessou, fazendo os ajustes finais no vu e retrocedendo para apreciar o resultado do conjunto.  Pronto. Voc est simplesmente maravilhosa, Ginny! No sabe como fiquei decepcionada quando no me deixou fazer este vestido para o seu primeiro casamento  e apontou um dedo na direo de Carrie.  Nem pense em me tirar esse prazer, ouviu bem, mocinha?
Ela ergueu as duas mos num gesto de defesa e, rindo, exclamou:
	Calma, Dris! No se apresse, porque eu no tenho a menor inteno de me casar cedo. Quero uma carreira de sucesso, e vou me dedicar  profisso antes de pensar em marido e filhos. Alm do mais, voc j teve sua cota de trabalho por cinco anos. Bret disse que h duas semanas vocs duas no aparecem no Herald porque no fizeram outra coisa seno cuidar dos preparativos do casamento.
Ginny riu:
	Bret no pode reclamar. Afinal, foi ele quem nos apressou.
Observando a irm e as amigas, Ginny ficou feliz. Dris vestia um conjunto verde de corte elegante e usava um chapu preto, da mesma cor dos sapatos e das luvas. Carrie e Laura, suas damas de honra, usavam vestidos idnticos de veludo azul plido, com saias drapeadas que cobriam os ps e cintos largos forrados de cetim. O corpo dos vestidos havia sido feito com renda turca e seus buques eram de rosas brancas, amarradas por uma fita azul do tom do vestido.
	Fiquei feliz quando soube que o resfriado do pequeno Travis havia passado. Cheguei a temer que no pudesse vir ao meu casamento  Ginny confessou.
Sorrindo, Laura comentou com ar de cumplicidade:
	Eu o ameacei. Disse que, se no melhorasse, ganharia um irmozinho no prximo ano. Pode imaginar outro Calhoun naquela casa? Eu no sobreviveria!
Apesar da careta de desgosto, Laura no conseguia esconder o quanto era feliz com a famlia. Ginny balanou a cabea:
	A ideia  realmente assustadora, mas  melhor deixarmos para discutir esse assunto daqui a algum tempo. Bret disse que quer ter um filho no prximo ano.
	Ento voc est perdida, porque ele no  do tipo que desiste de alguma coisa que deseja  Carrie garantiu. Ao ouvir as notas da melodia que indicava o incio da cerimnia, sorriu e disse:  Est na hora. Esto prontas?
Ginny pegou o buque, ajeitou as pontas da fita azul sobre o vestido e, entre feliz e ansiosa, respondeu:
	Mais do que pode imaginar.
Apesar do nervoso, agora no experimentava mais o menor sinal de preocupao, pois sabia que o segundo casamento seria absolutamente diferente do primeiro. Desta vez ela e o marido seriam capazes de resolver seus problemas de maneira mais sincera, sem fugas ou acusaes.
Teriam at uma verdadeira lua-de-mel, e Hugh oferecera-se para substituir o novo editor do Herald enquanto estivessem fora. Quando retornassem, iriam morar na casa da famlia de Ginny, pois o pai planejava permanecer na cabana da montanha at terminar seu livro, e depois iria para o apartamento sobre a garagem, caso no encontrasse uma casa menor onde pudesse viver sozinho.
Laura e Carrie aproximaram-se da porta da pequena sala que ocupavam, ao lado da igreja. Hugh esperava no saguo principal e ajeitava a gravata com ar nervoso. Durante semanas, mostrara-se ansioso e agitado por ser obrigado a vestir um fraque, coisa que nunca havia feito em toda a vida, mas acabara entregando-se ao prazer e  felicidade de poder entrar com a filha na igreja.
Orgulhosa, Ginny deu o brao ao pai e ergueu-se na ponta dos ps, aproveitando para dar uma espiada atravs da porta entreaberta e ver Bret parado no altar. Ao v-la, foi como se ele parasse de respirar, e a intensidade de seu olhar a fez lembrar-se do dia em que se conheceram. Uma onda de calor percorreu seu corpo trmulo, o nervoso desapareceu e Ginny deu um sorriso radiante que teve o poder de comover o pai, a irm e a amiga que, agora, voltaria a ser sua cunhada. O que quer que acontecesse, sabia que no tinha nenhuma razo para preocupar-se com o futuro, pois ele seria seguro enquanto tivesse o amor daquele homem.
As primeiras notas da Marcha Nupcial ecoaram por toda a igreja e, esperando o momento de entrar, Ginny inclinou-se e sussurrou no ouvido da irm:
	Carrie, j conheceu Will, o irmo mais novo de Bret?
	Sim, na noite passada, durante o ensaio. Por qu?
	Porque alguma coisa estranha acontece com os homens daquela famlia durante cerimnias de casamento.  melhor ficar preparada.
	Depois de todos os problemas que voc e Laura tiveram com aqueles irmos? Esquea! Comigo a lenda no vai se repetir.
Carrie seguiu em frente, ao lado de Laura, e Ginny finalmente entrou na igreja de braos dados com o pai, atraindo todos os olhares.
Haviam dado alguns passos quando Hugh sussurrou:
	Muito bem, Ginny, agora acho que est fazendo a coisa certa.
Sem desviar os olhos do altar florido, decorado com fitas azuis como as que ornamentavam seu buque, ela sorriu para o homem que amava e respondeu:
	Eu tenho certeza que sim, papai. Desta vez seremos muito felizes.

FIM
